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Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

Equipas de sonho - Sporting 1993/95

A época de 1993/94 foi das mais interessantes dos anos 90 em Portugal. Do meu ponto de vista de adepto do Benfica, foi uma época de sonho, com uma equipa fabulosa, e com uma vitória histórica sobre o Sporting em Alvalade, não só pelo resultado mas pelo simbolismo e emoção do mesmo.

 

Não é no entanto por esse lado que entro. Apesar de serem os eternos rivais, gosto de pensar nessa equipa do Sporting. Sousa Cintra tinha conseguido um golpe de génio sobre o Benfica, com a contratação de Paulo Sousa e António Pacheco. Esteve perto também de levar João Pinto, o que se não daria necessariamente o título ao Sporting, quase certamente o teria retirado ao Benfica. Houve (e haverá ainda) muita controvérsia sobre a legitimidade ou falta dela dessas transferências, mas fiquemo-nos pelo essencial: o Sporting capturou dois belos jogadores, especial e indubitavelmente, Paulo Sousa.

 

Só que se Sousa era um jogador único (no prazo de três épocas ganhou dois títulos europeus), veio simplesmente juntar-se a um plantel de sonho. Onde o plantel do Benfica era incompleto e desequilibrado, sem pontas de lança dignos desse nome e uma defesa misturando excessiva veterania e juventude, o Sporting tinha uma equipa bastante completa. A defesa tinha jogadores pouco espectaculares mas fundamentalmente sólidos. O meio campo equilibrava inteligência, fantasia e garra. O ataque tinha largura nas alas, era incisivo com os pontas de lança e tinha variedade. Era um plantel altamente complementar e que permitia diversas abordagens e ao mesmo tempo conseguia ser espectacular quando tudo engrenava. Olhar sector a sector ajuda.

 

 

Meninos d'Ouro

Agora que Renato Sanches venceu o prémio de "Golden Boy" atribuído ao mais promissor jogador jovem a jogar na Europa, convém manter os pés na terra em relação ao assunto. Nem isto significa que é já uma estrela nem que vai ser um dos melhores do mundo. Significa tão só que é um dos jogadores num estágio de desnvolvimento mais avançado e que beneficiou da exposição que o título europeu lhe deu. Tivesse Portugal perdido o jogo com a Hungria (e esteve perto), o título poderia ter acabado nas mãos de Coman.

 

Quando falo no estágio de desnvolvimento, convém pensar em termos de potencial. Um jogador pode ter um potencial de chegar a qualquer ponto da escala 0 a 100 (com 100 sendo talvez Messi com o corpo de Ronaldo), mas nunca lá chegar (depende de se conseguir desenvolver, não ter lesões graves, etc). Da mesma forma, o estágio de desenvolvimento dos jogadores não só varia com a idade mas varia entre jogadores da mesma idade. Messi e Ronaldo são outra vez bons exemplos. Os seus potenciais seriam semelhantes e os valores reais que atingiram também. Mas é indubitável que Messi aos 20 anos estava mais avançado no seu desenvolvimento que Ronaldo.

 

Assim sendo, Renato Sanches pode ter vencido este troféu porque está hoje num estágio de desenvolvimento superior. Ninguém garante que Dembelé não será um jogador consideravelmente melhor dentro de 5-10 anos. Também convém recordar que ter vencido o Campeonato da Europa ajudou, uma vez que Sanches não seria melhor nem pior sem o troféu mas provavelmente as suas hipóteses de vencer o prémio seriam piores.

 

A lista dos anteriores vencedores também oferece uma perspectiva (ver abaixo). Se há nomes de jogadores que estão hoje indubitavelmente entre os melhores do mundo (Messi, Aguero, Pogba) também há outros que não chegaram ao nível mais elevado por uma razão ou outra (van der Vaart, Anderson, Pato), que dão o sabor de não terem chegado ao valor previsto (Rooney, Fabregas) e alguns outros sobre cujas carreiras ainda paira um ponto de interrogação (Goetze, Balotelli). Veremos onde chegará Sanches.

 

Anteriores vencedores:

2003 - Rafael van der Vaart (Ajax)

2004 - Wayne Rooney (Man Utd)

2005 - Lionel Messi (Barcelona) 

2006 - Cesc Fabregas (Arsenal)

2007 - Sergio Aguero (Atletico Madrid) 

2008 - Anderson (Man Utd)

2000 - Alexandre Pato (AC Milan)

2010 - Mario Balotelli (Man City)

2011 - Mario Gotze (Borussia Dortmund)

2012 - Isco (Malaga)

2013 - Paul Pogba (Juventus)

2014 - Raheem Sterling (Liverpool)

2015 -  Anthony Martial (Man Utd)

 

Uma última note: os adeptos do Benfica exultarão com esta vitória. Têm razões para celebrar o sucesso imediato de um talento saído da sua Academia. Isso não deve no entanto deixar que se deixem levar. Lembremos o pathos grego.

Transferências, agentes e mercado do futebol

E chegados a 1 de Setembro, os adeptos fazem as contas aos negócios dos seus clubes e proclamam vitória. Comentar que o exercício é tão subjectivo como fútil é uma perda de tempo. Faz parte da natureza dos adeptos a celebração de um sucesso, real, imaginário ou apenas potencialmente futuro. Na ausência (ou escassez) de jogos a sério, os aeptos sentam-se nas bancadas dos cafés, levantam alegremente os jornais à laia de chachecóis e anunciam que nunca na sua vida esperariam que o seu clube fizesse negócios tão bons, os quais eclipsam qualquer movimentação dos rivais. Após os primeiros adeptos esvaziarem o balão de gás, começam então os mais cínicos a lamentar que o clube não tivesse conseguido obter aquele lateral-esquerdo tão desejado ou conseguido livrar-se daquela suposta estrela que apenas fez as delícias dos restaurantes da cidade.

 

Aquilo que os adeptos normalmente não vêem é a perspectiva financeira dos negócios. Apesar de se olhar para os negócios de transferências numa perspectiva mercantilistas de vendas menos compras, os clubes em geral olham para eles numa perspectiva contabilística, chata mas com mais garantias. Não posso dizer que os clubes portugueses sigam necessariamente a prática da maioria dos clubes europeus, mas uma vez que é precisamente esta lógica contabilística que a UEFA utiliza nas suas análises de fair-play financeiro, é de esperar que pelo menos os clubes com presença nas provas europeias ou aspirações às mesmas sigam as suas regras.

 

 

 

Semenya, um exemplo de dignidade

Para quem não saiba: Semenya é uma atleta sul-africana que em 2009 apareceu nos mundiais de atletismo e venceu os 800 metros. Na altura houve dúvidas sobre se seria de facto uma mulher e foi submetida a testes para determinar a sua sexualidade. Num processo muito mal conduzido, e apesar de os resultados não terem sido tornados públicos (correctamente, protegendo a privacidade da pessoa) Semenya foi apontada pela Federação Internacional de Atletismo Amador (FIAA) como hiperandrogenismo. Isso permitir-lhe-ia produzir testosterona muito acima dos níveis normais para mulheres e assim ter uma vantagem que a FIAA considerava injusta para as adversárias.

 

Na altura Semenya terá feito um acordo com a FIAA em que manteria os títulos ganhos mas em que tomaria suplementos que baixariam artificialmente os seus níveis de testosterona. Os resultados pioraram dramaticamente e Semenya, mantendo-se uma atleta de nível internacional, deixou de ser dominante. Após uma atleta indiana acusada também de hiperandrogenismo contestar a decisão da FIAA (por falta de fundamento científico), a FIAA removeu os limites à concentração de testosterona permitida em mulheres e Semenya voltou a ser dominante, vencendo no mesmo dia os 400m, os 800 m e os 1500 m nos campeonatos sul-africanos.

 

A decisão ainda está pendente. Se a FIAA conseguir provar cientificamente que tais atletas têm vantagens, os limites poderão voltar. O presidente da FIAA, Sebastian Coe (antigo corredor de 800 m e 1500 m) está determinado em impedir que essas atletas tenham essa dita vantagem e não parece ver qualquer problema em expôr as vidas das atletas em causa para esse fim. As atletas que competem com Semenya também parecem estar entusiasticamente a favor de tais limites, com as suas críticas à aparência de Semenya, que "parece um homem".

 

Pessoalmente estou-me nas tintas para os benefícios da testosterona em Semenya (ou falta deles). A Phelps ninguém pede para encurtar pernas, nadar com pesos ou encolher as braçadas. Ninguém exigiu que Biles reduzisse os músculos ou tivesse um colete de forças. Bolt parece ter corrido de sapatilhas e calções, não descalço e com calças de cabedal. Todos estes beneficiaram das vantagens que a Natureza e o acaso lhes deram. Se assim não fosse não haveria trabalho duro que lhes desse medalhas. No entanto é o equivalente a tudo isso que parecem estar a pedir a Semenya, apenas em mais larga escala.

 

Semenya é uma mulher, segundo todas as definições que o desporto impôs. Se não o fosse não seria permitida a sua entrada na competição com outras mulheres. Sendo então mulher, quaisquer vantagens morfológicas, mentais ou fisiológicas deveriam ser permitidas. É um freak da Natureza? Pois claro que sim. Qualquer campeã/o olímpica/o o será. Ela sê-lo-à mais. Se isso não fosse permitido não teríamos tido deuses dos desportos.

 

A reacção que contudo mais me choca é a das outras mulheres. Num mundo onde as mulheres são constantemente alvos de objectificação, acusar Semenya com base na sua aparência não é só cruel: é estúpido. A sua argumentação deveria ser o mais simples possível. Se um dia a FIAA decidir que elas deveriam competir com maquilhagem e minikini, que não se venham depois queixar.

 

Quanto a Semenya, esta vai enfrentando a tempestade com a maior dignidade possível. A FIAA assalta a sua dignidade (não se preocupando com a permanência de vários recordes do mundo impossíveis nos livros) mas Semenya não demonstra estar afectada. Dá a sua resposta de forma silenciosamente ensurdecedora: corre e, com ou sem limitações, não se queixa. O contraste com o olímpico Coe não poderia ser mais gritante.

Resenha rápida sobre os Jogos Olímpicos

E assim se passaram mais uns jogos olímpicos. Ninguém foi assassinado durante a competição, Lochte afinal não foi assaltado, Phelps vai aumentando os riscos de ser dissecado como alien, Portugal conseguiu uma medalhita pela judoca que normalmente falhava, os brasileiros lá conseguiram o que lhes faltava no futebol, Bolt finalmente chegou ao que todos sabem e afirmou ser o melhor de todos os tempos, os britânicos deram uma demonstração prática da importância do investimento financeiro para obter medalhas, uma miúda americana mandou na ginástica uns saltos que são medidos em novas unidades de "biles" (ela, Phelps e Bolt vão agora aos MiB pedir um visto de saída do planeta para ver a família), o Kosovo que nem sequer é reconhecido como país por muitos outros estados conseguiu ficar à nossa frente no medalheiro (adoro esta palavra), um sul-africano (Wayde van Niekerk) bateu o recorde de Michael Johnson que ainda faltava e arrisca-se a ser perseguido com acusações de doping por não ser preto o suficiente, as coreias unificaram-se para uma selfie, o estádio olímpico não se encheu nem para Bolt, os brasileiros descobriram como transformar a água de piscina em capirinha, ninguém apanhou disenteria ou cólera porque mantiveram a boca fechada, os russos ainda acabaram em quarta no medalheiro (já disse como gosto desta palavra?) apesar ou graças ao doping (ainda estou para saber esta), uma chinesa engraçada fez uma audição para o próximo filme do Adam Sandler (nos EUA já estaria rica), e uma australiana e uma americana mostraram que o desportivismo ainda vai aparecendo esporadicamente.

 

O meu tema preferido é no entanto para o caso Caster Semenya. Mas sobre isso escrevo num post separado.

Balanço do Euro 2016

E assim terminou o primeiro europeu com 24 equipas. Para mim, que comecei a ver os mundiais em 1986, com este memso formato de 24 equipas, foi como um regresso ao passado. Não foi, no entanto, um regresso agradável. O conceito das 24 equipas era para mim na altura algo de estranho, pouco matemático. Hoje, sendo fácil a compreensão do conceito, torna-se ainda mais desagradável. Como muitos, considero que este formato terá sido, pelo menos em parte, responsável pela baixa qualidade de um torneio que terá sido o pior que vi desde o Itália '90.

 

 

Balanço ao Europeu de Portugal

Começo logo pela primeira confissão: não queria Fernando Santos como treinador quando Paulo Bento foi despedido. A razão era a suspensão que lhe pesava sobre a cabeça. Considerava que a mesma poderia colocar em causa o seu trabalho e poderia complicar desnecessariamente a vida à selecção. Felizmente foi encurtada e não teve consequências.

 

Segunda confissão: critiquei seriamente o estilo de jogo português. Nas eliminatórias consegui entender a opção de se focar na segurança defensiva mas no torneio entendi que não haveria necessidade, dado que havia também mais tempo para treinar os jogadores e criar um estilo mais atacante e fluido.

 

Feitas as confissões, as avaliação genérica.

 

 

Análise: Portugal - França. Final do Euro

De empate em empate até ao empate - e vitória - final. Portugal na final foi ainda mais fiel que antes a este princípio e às linhas gerais traçadas por Fernando Santos e preocupou-se em aguentar o jogo até que um lance individual permitisse vencer os franceses. Todos esperaríamos Ronaldo, Nani ou até Quaresma ou Sanches. Foi Éder, o mais improvável de todos. O caminho foi tudo menos linear, mas também por isso pode parecer mais saboroso.

 

 

Pre-análise: Final Portugal - França

E assim, de empate em empate Portugal chegou à desilusão da 1ª vitória e à final do Euro 2016. Agora vem um improvável (visto do final da fase de grupos) jogo final contra a França e um igualmente improvável (vista desde momento) primeiro título sénior.

 

Muitas pessoas há que olham para este jogo como uma quase inversão do Euro 2004, onde a equipa defensiva mas sólida chega à final do torneio contra a favorita que é a anfitriã. Para mais sendo o seleccionador português o anterior seleccionador de uma Grécia que continuava os ensinamentos dessa equipa de 2004. Em Portugal naturalmente que se espera que o resultado possa ser o mesmo, numa das mais puras expressões de pathos que consigo imaginar. A ironia ameaça afogar-me à medida que escrevo estas linhas. Adiante. 2016 não é 2004, França não é Portugal e Ronaldo leva 12 anos em cima. E, mais que tudo, Deschamps não é Scolari.

 

Tacticamente poderá parecer que Fernando Santos só tem que escolher os mesmos jogadores (idealmente com Pepe no lugar de Bruno Alves), uma vez que o melhor onze se escolhe a si mesmo. Isso seria um erro por vários motivos, mas acima de tudo por um muito simples: independentemente do adversário, é sempre boa ideia adaptar a nossa equipa ao adversário; tanto para nos protegermos dos seus pontos fortes como para explorar os seus pontos fracos. E é sob este prisma que previrei o jogo.

 

 

Análise: França - Alemanha

Este jogo tinha tudo para ser o mais interessante do Europeu: duas equipas capazes de jogar bom futebol, com o maior leque de opções tácticas e individuais à sua disposição, que gostam de ter a bola nos pés, com jogadores de enorme qualidade e, além de tudo, era um França-Alemanha, um jogo com suficiente história (mesmo que pouco recente) a apimentar tudo.

 

Löw e Deschamps tinham opções tácticas a tomar antes do jogo. Do lado alemão Löw tinha de decidir não só quem jogava no lugar dos lesionados Gomez e Khedira e do suspenso Hummels, mas também como colocaria os jogadores. Havia a especulação sobre se preferiria deixar o 3-5-2 do jogo com a Itália, numa forma de contrariar a dupla atacante francesa (Giroud e Griezmann). O argumento em contrário era a falta de Hummels, o que lhe retiraria a possibilidade de ter mais um jogador capaz de construir jogo a partir da defesa. A solução poderia ser jogar com Can a central (posição em que jogou no passado pelo Liverpool) mas isso arriscaria que Deschamps instruísse Giroud a colar-se a Can e a deixá-lo isolado.

 

No final Löw foi fiel a si próprio e, sem a motivação de enfrentar o seu papão (a Alemanha venceu pela primeira vez uma eliminatória contra a Itália nas meias-finais), o seleccionador alemão decidiu confiar na capacidade dos seus jogadores em manter a posse de bola e fez entrar simplesmente Schweinsteiger para o meio campo, Can como substituto directo para Khedira e Draxler para o ataque, com Müller a passar para ponta de lança. E aí começou a perder o jogo (embora, em força da verdade, tivesse poucas alternativas).

 

 

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