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Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

A força da técnica e a técnica da força

Graças à indicação de um leitor no Delito de Opinião cheguei a este artigo. O título agarra de imediato a atenção e "pede" para ser contestado. Como se pode falar em "matar o futebol" quando vivemos hoje um dos períodos mais espectaculares de que há memória? Lendo o artigo chegamos à conclusão de que se fala essencialmente na dicotomia entre a prevalência da técnica (e talvez táctica) e do físico. Ou, nas palavras imortais de Gabriel Alves: «a força da técnica contra a técnica da força».

 

O artigo referencia de imediato o mundial de 1994 como o marco que anuncia a mudança de perspectivas. É como se pré-1994 o futebol vivesse numa era em que qualquer gordinho, baixote e sem resistência poderia ser um campeão e a seguir fosse necessário ser-se essencialmente um ciborgue para poder sequer sobreviver no mundo do futebol profissional. O ponto de partida da discussão é uma palestra de Junama Lillo, o guru de Guardiola, pelo menos do ponto de vista ideológico. A sua opinião é que, além de ter imposto uma ditadura do físico que só hoje começa a ser quebrada, o treino do futebol impôs uma obsessão do colectivo e da organização em detrimento da técnica e criatividade. Esta opinião parece ser corroborada por diversos outros comentadores ao longo do texto.

 

Infelizmente este texto - não posso falar da opinião dos comentadores fora aquilo que foi citado - não apresenta a perspectiva histórica da evolução do futebol. Ao longo de toda a história sempre existiu esse equilíbrio entre técnica e físico, entre organizaçáo e liberdade, entre táctica e criatividade. A dicotomia não é binária, é antes gradual entre os dois extremos e as melhores equipas ao longo da história sempre souberam equilibrar as duas vertentes.

 

 

Olhar para a lista de vencedores da Taça dos Campeões Europeus (agora Liga dos Campeões) ajuda a perceber a forma como a evolução teve lugar:

  • 1955-66: domínio latino, com campeões espanhóis, italianos e portugueses e finalistas predominantemente destes países. O futebol era identificado como mais dominado pela técnica.
  • 1967-84: domínio de equipas centro-europeias (uma excepção para o AC Milan) com campeões britânicos, alemães ou holandeses. O futebol era identificado como dominado pelo físico.
  • 1984-1995: uma maior dinâmica, com maiores alternâncias entre sul-europeus e centro-europeus e futebol a alternar entre mais físico e técnico, mas predominância sul-europeia.
  • 1996-actualmente: entrada em vigor da regra Bosman que é seguida pela abolição de limites aos limites de nacionalidades nos clubes. As fronteiras esbatem-se e deixa de fazer sentido criar a mesma dicotomia entre sul e norte da Europa.

Na prática o que isto significava era que certos países aprendiam a usar as vantagens dos outros e incorporavam-nas no seu futebol. Antes de 1954 não existiam competições de clubes europeias, mas é bom lembrar que até à humilhação pelos húngaros os ingleses eram considerados a elite, antes da II Guerra Mundial os austríacos dominavam e que em todos esses casos havia sempre um equilíbrio entre técnica e táctica.

 

Sendo concretos, poderemos olhar para aquilo que distinguia as grandes selecções: normalmente estas destacavam-se quando aliavam as suas características "naturais" (técnica ou físico) a outras "adquiridas" (a que faltava), adicionavam a estas alguma mais recente evolução táctica e por fim beneficiavam de uma geração única de jogadores.

 

A Áustria dos anos 30, a Hungria dos anos 50, a Holanda dos anos 70, todas elas foram equipas que souberam combinar o melhor desses mundos. No artigo faz-se muita referência à Holanda como tendo criatividade e técnica, mas parecem esquecer um jogador como Johan Neeskens, que corria o tempo todo e era bastante duro no tackle (com as regras de hoje não duraria 15 minutos em campo). Todas as equipas tinham este equilíbrio. Nenhuma delas tinha jogadores exclusivamente dedicados à criatividade. No máximo teriam jogadores "âncoras" (os durinhos e mais defensivos) que eram esporadicamente também muito bons tecnicamente (vem à memória Clodoaldo, o médio mais defensivo do Brasil de 1970, ou Falcão, com semelhantes funções no Brasil de 1982).

 

O artigo referencia especificamente Maradona ou Garrincha, mas isto faz pouco sentido. Maradona porque, apesar de uma morfologia algo estranha, era um excelente atleta nos seus tempos áureos. Quem cronometrar o slalom do golo à Inglaterra em 1986 verá que correu a uma velocidade estonteante, fazendo alguns 60 metros em cerca de 9 segundos ao mesmo tempo que driblava adversários. A maioria de nós não conseguiria tal feito com sapatos de sprinter numa pista. Garrincha, por outro lado, era um fenómeno da natureza. Era estranho, mas também rápido. Era famoso pelo drible, mas também era difícil de apanhar quando em corrida. Um exemplo melhor teria sido Puskas no Real Madrid dos anos 50-60. Gordo, lento, pouco móvel, mas que quando tinha a bola marcava golos do nada.

 

Ainda assim faria pouco sentido olhar para excepções. A maioria dos jogadores de qualidade aprende as duas vertentes e, por muito que se diga que o Bayern de Guardiola recuperou o espírito do passado, convém lembrar que o faz mais uma vez equilibrando as vertentes física e táctica (basta olhar para Lewandowski, Boateng, Alaba, Müller para o perceber). Nesse aspecto é verdade que o espírito e os conceitos do passado são recuperados, mas não apenas no aspecto táctico, antes na forma como mesclam todas as vertentes do futebol.

 

Voltando a 1994, apesar do desdém dos comentadores por esse Mundial, convém lembrar que foi quando a Itália se organizou que Baggio passou a ter a liberdade necessária para ser o melhor jogador do mundial. O mesmo fez a Roménia para poder explorar Hagi ou a Suécia com Brolin e a falta de organização colombiana não permitiu a Valderrama expressar a sua influência. 1994 não foi o melhor mundial de que há memória, mas foi melhor que 1990 e teve momentos e equipas excepcionais, como a Roménia, a Bulgária, a Suécia, etc. Houve ainda o monumental jogo defensivo (que também faz parte do futebol) da Itália na final.

 

Não teve a fantasia de 1982 nem sequer de 1986, mas em retrospectiva consigo lembrar momentos mais interessantes do nos mundiais de 1998 ou 2002 (1990 até foi a espaços interessante, mas não de forma consequente). Recuando no tempo, 1978 é pouco relembrado pela seua qualidade, 1966 igualmente (independentemente da sua importância nos imaginários português e inglês). 1994 não foi o melhor mundial de que há memória, mas esteve longe de ser o pior e certamente que não o foi por uma qualquer intrusão do aspecto físico.

 

A discussão existe há muito tempo e segue fases. A certa altura houve propostas de reduzir o número de jogadores em campo para 10 por equipa, de forma a criar espaços e a aumentar as possibilidades de golos. No entanto acabámos num estilo de jogo em que os treinadores mais inovadores consideram que há espaço a mais e tentam negá-lo ao máximo, como é o caso da táctica alemã do gegenpressing da qual Klopp ou Schmidt são os principais profetas. Ao negar o espaço aos adversários estes treinadores acabam por aceitar que a sua equipa também não o terá. Por isso insistem em jogadores de grande qualidade técnica, capazes de trocas de bola em grande velocidade para poder ultrapassar a pressão adversária.

 

A verdade é que não existe nenhum domínio de um aspecto (técnica ou físico) sobre o outro. O jogador mais forte e rápido não contrinuirá se não souber o que fazer a uma bola e o jogador mais tecnicista não contribui se não conseguir correr e executar depressa. A conversa do artigo citado é interesante, mas no fim acaba por redundar num velho "no meu tempo é que era". Camões, se vivesse hoje, provavelmente apontar-lhes-ia o caminho do Restelo para Dortmund.

 

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