Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

Analisando a influência de Jesus no Sporting

Gabrielle Marcotti, cujos textos gosto imenso de ler, costuma escrever sobre o tema de mudar de treinadores que se deveria sempre tomar uma decisão com base num critério: a equipa evoluiu? Trago isto à baila a propósito de Jorge Jesus e a contestação de que é alvo no Sporting.

 

Quando foi contratado, Jesus constituiu um verdadeiro golpe de génio. Vindo do rival, com quem tinha vencido os dois campeonatos anteriores, e confessando-se sportinguista, Jesus era um tónico para os adeptos leoninos. Não era barato, mas também isso demonstrava a recém-reconquistada capacidade financeira do clube. É um treinador que gosta de futebol de ataque, valoriza jogadores e vinha com experiência de vitória e de jogar na Liga dos Campeões. Para dizer a verdade, era difícil encontrar um candidato melhor.

 

 

Passados dois anos, que mudou na descrição acima? Alguma coisa? Para dizer a verdade... não (fora o óbvio facto de ter deixado de ser campeão). Jesus continua a ser um treinador atacante, que valoriza jogadores (João Mário, Gélson, entre outros) e continua a ter experiência de Liga dos Campeões. Só que isto ignorou os defeitos de Jesus, começando por o seu registo na Europa não ser particularmente brilhante, mesmo no Benfica.

 

Antes de mais, Jesus é um treinador com um enorme ego. Compreende-se parcialmente mas que, para si, justifica certas decisões, por muito teimosas que sejam. Gosta de se convencer que descobre novas posições para os seus jogadores (especialmente para os alas, cuja velocidade aprecia também noutras zonas do campo). Gosta também de acreditar que os adversários necessitam de se adaptar às suas equipas e não usa sistemas específicos para cada jogo (o que lhe traz dissabores na Europa). Outro hábito é o de ser muitíssimo fiel a jogadores que aprecia, mesmo quando começam a decair com a idade, não atingem o nível esperado ou estão em baixa de forma.

 

Isto significa que Jesus insiste no mesmo sistema e não muda se a tal não for obrigado. No Benfica, após o sucesso da primeira época (em que teve à disposição um plantel excepcional), foi necessário que Luís Filipe Vieira começasse a controlar os seus excessos e limitar a sua influência nas contratações para que o sucesso começasse a surgir de forma consistente. No fundo, aquilo de que Jorge Jesus necessita (embora não deseje) é de um director de futebol com apoio da direcção do clube e força para o controlar.

 

No Sporting isso não sucede. Confesso que não estou familiarizado com a estrutura do departamento de futebol do clube (nem de nenhum outro), mas não me parece que, mesmo existindo um director de futebol, ele exerça muita influência sobre Jesus. As aquisições de Bruno César (com quem trabalhou no Benfica), de Brian Ruiz e de Joel Campbell (este por empréstimo) indicam que Jesus continua a receber os jogadores que deseja sempre que isso é possível. Isto não é uma crítica à escolha destes jogadores em concreto, apenas uma nota sobre como Jesus recebeu jogadores que cobiçou no passado. Além disso, a frequência com que Jesus continua a falar para a comunicação social e a parecer fazer as declarações que entende, denota também alguma falta de mão sobre ele.

 

Nada disto quer dizer que Jesus seja um mau treinador, bem pelo contrário. A revista FourFourTwo colocou-o na 10ª posição do seu ranking dos melhores treinadores do mundo em 2016. O seu registo é bem conhecido: tem títulos em Portugal e alguns brilharetes na Europa, especialmente quando abdica do seu estilo louco e assume posições mais pragmáticas, como quando conseguiu eliminar a Juventus nas meias-finais da Liga Europa em 2014. A lista dos jogadores que valorizou é também excepcional: David Luiz, Fábio Coentrão, Javi García, Di María, Gaitán, Garay, Matić, Witsel, Enzo Pérez, Oblak, Maxi Pereira (mesmo que saindo a custo zero), André Gomes, João Mário, Slimani, Adrien Silva, Gelson Martins (mesmo que estes não tenham saído). Todos jogadores de grande qualidade ou que, sob Jesus, tiveram prestações acima do que seria de esperar deles.

 

Quando os spoprtinguistas se queixam dele, deveriam talvez mostrar mais impaciência com uma direcção que não parece ter uma estratégia tão clara no plano desportivo quanto do plano directivo. Bruno de Carvalho é alguém que se presta a críticas fáceis. Pessoalmente não gosto do seu estilo e sou da opinião que mente frequentemente quando tem vontade de tomar posições populistas (se bem que está longe, muito longe, de ser o único presidente de clube que o faz, mesmo em Lisboa). É no entanto alguém obviamente apaixonado e que tem conseguido reerguer o seu clube. Se conseguir evitar passar tanto tempo envolvido com o futebol (e delegar num bom director de futebol as funções relevantes), o clube só teria a beneficiar.

 

A pergunta que levantei no início do post deveria então ser respondida: o Sporting evoluiu desde que Jorge Jesus tomou conta do banco? Pessoalmente penso que sim. Em parte porque o próprio clube estabilizou e passou a poder oferecer melhores jogadores aos seus treinadores, mas Jesus emprestou um élan e ambição ao clube que permite aos sportinguistas estarem hoje bastamente insatisfeitos com a prestação do clube. Mais que pensar em remover o treinador, os sportinguistas deveriam talvez pedir ao clube que Jesus tenha as condições ideais para fazer aquilo que faz melhor: treinar. Se isso suceder, estou em crer que a insatisfação será bastante menor.

 

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D