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Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

Análise: Portugal - França. Final do Euro

De empate em empate até ao empate - e vitória - final. Portugal na final foi ainda mais fiel que antes a este princípio e às linhas gerais traçadas por Fernando Santos e preocupou-se em aguentar o jogo até que um lance individual permitisse vencer os franceses. Todos esperaríamos Ronaldo, Nani ou até Quaresma ou Sanches. Foi Éder, o mais improvável de todos. O caminho foi tudo menos linear, mas também por isso pode parecer mais saboroso.

 

 

O início do jogo

Na minha pré-análise tinha expressado a minha preferência por ver Danilo no lugar de Renato Sanches mas tinha também indicado que esperava apenas o regresso de Pepe.Não me enganei, embora não fosse grande previsão. Também não foi muito difícil prever a forma de jogar, com a equipa recuada e tentando minimizar o espaço entre defesa e meio-campo, posicionando ali William Carvalho e deixando Sanches, João Mário e Adrien Silva a pressionar os franceses.

 

Já Deschamps fez o que eu de alguma forma esperava e manteve o desenho táctico de 4-4-2. Com Portugal sem um jogador mais avançado a fazer a ligação entre o meio campo e o ataque, Kanté não era necessário e era possível ter confiança em Pogba e Matuidi no centro, com Sissoko e Payet nos flancos mas com liberdade e com Griezmann por onde quisesse.

 

Na primeira meia hora a França foi tendo vantagem. Não só estava a jogar de forma mais agressiva que Portugal, onde alguns jogadores pareciam acusar a importância do jogo, como conseguiam criar as situações de vantagem que se esperava, com Payet e, especialmente, Sissoko a causarem estragos. Este último era mesmo o motor da equipa, possante, rápido, bom tecnicamente e ameaçador sempre que corria com a bola nos pés. Pogba e Matuidi estavam algo calmos, mas a França ameaçava e a sua função era de fiéis da balança, mais que desequilibradores. Se no caso de Matuidi isso era de esperar, já de Pogba ter-se-ia esperado mais, mas Deschamps já antes o tinha agrilhoado a funções mais defensivas, parecendo não confiar nele ou preferindo outros jogadores.

 

Portugal não estava a conseguir sair da teia francesa, perdendo duelos individuais por menor agressividade, qualidade ou capacidade física. A defesa parecia relativamente sólida, mas da forma como o jogo se estava a desenrolar, dava a ideia que o primeiro (de vários) golo francês não estaria longe.

 

A lesão de Ronaldo

Quando Ronaldo se lesionou, a França tinha um plano para lidar com ele. Pogba e Matuidi estavam contidos para poder auxiliar a defesa em caso de necessiade (evitando que Ronaldo ganhasse balanço com a bola). Depois de se lesionar a França deveria ter aproveitado a vantagem mas, estranhamente, perdeu parte do controlo.

 

Isto pode em parte ter sido devido ao momento do jogo. Habitualmente as equipas mais atacantes mantêm o ímpeto atacante nos primeiros 15 a 25 minutos mas depois preferem controlar o jogo e manter energias. Pareceu no entanto que a lesão de Ronaldo lhes deu um problema inesperado: o que fazer quando Ronaldo não está em campo. Esse era um cenário para o qual a equipa não estaria preparada. Pogba e Matuidi continuaram a manter-se recuados para patrulhar o espaço em frente da defesa por causa de um perigo que já não existia. Por outro lado, sem a opção de lançar bolas para Ronaldo, os portugueses começaram a transportar a bola no pé em drible (especialmente por Renato Sanches e João Mário) ou com passes curtos. Para isto não havia preparação.

 

Portugal, como referido acima, já não tinha a opção rápida de Ronaldo. Com a entrada de Quaresma, a solução foi passar para um desenho de 4-5-1 (ou 4-1-4-1) com Quaresma e João Mário nas alas e Nani na frente. Na esquerda João Mário recaía para o meio para ajudar a controlar a posse de bola e fazer pressão sobre os médios franceses. Guerreiro subia para dar largura ao jogo. No lado direito Cédric era mais contido e Quaresma, um ala mais tradicional, era quase o único a subir, com apoio dos médios mais interiores.

 

Fundamental neste período foram dois jogadores: José Fonte e William Carvalho. O primeiro estava sempre disponível na defesa para receber um atraso do meio campo e tinha a calma suficiente para não se querer livrar da bola ou acelerar o jogo. William Carvalho caía frequentemente para entre os centrais e negar qualquer pressão que Giroud e Griezmann exercessem. Sem um médio mais ofensivo e central, Carvalho estava quase sempre solto e, nas poucas vezes que tinha pressão, era por Sissoko ou Payet saírem das alas, o que libertava sempre um lateral para receber o passe seguinte.

 

Segunda parte e mudanças tácticas

Na segunda parte Deschamps foi o primeiro a ceder e fez entrar, como seria previsível, Kingsley Coman para explorar mais as alas. Com Sissoko em bom rendimento mais pela direita, a opção para a saída recaiu em Payet, uma decisão que parecia estranha. Por um lado Giroud estava em sub-rendimento e por outro fazia relativamente pouco sentido remover Matuidi ou Pogba deixando um buraco no meio. Se Giroud saísse, Griezmann ficava sozinho no centro do ataque, negando-lhe a mobilidade e colocando-o numa situação à qual não está habituado. Saindo Pogba ou Matuidi estaria a convidar Portugal a atacar pelo meio, sobrecarregando aquele que ficasse.

 

Talvez faça sentido agora dizer que podia ter arriscado mais, talvez retirando Matuidi, fazendo seguir Sissoko para o meio e enviando Griezmann para o flanco direito. Portugal não oferecia muito perigo nessa altura e talvez funcionasse. Contudo, para fazer tais alterações teria também de mudar completamente o desenho táctico para formas que não tinham funcionado nos jogos anteriores. Saiu Payet e Coman foi atormentar Cédric.

 

De facto a entrada de Cédric causou problemas sem fim a Cédric Soares, que não tinha apoio suficiente de Quaresma para lidar com Coman e Evra. Vendo isto, fernando Santos fez entrar Moutinho para o lugar de Adrien, dando pernas frescas ao meio campo e colocando Renato Sanches mais sobre a direita, para fechar o flanco. Dez minutos terão sido suficientes para perceber que não bastava e, além disso, que com Sanches na direita ficava sem a sua principal arma de condução de bola para o ataque. Decide então fazer entrar Éder e sair Sanches.

 

Entra Éder e muda a táctica

Quando Éder entrou perguntei-me (eu e muitos portugueses) que estaria a passar pela cabeça de Fernando Santos. Éder tinha sido pouco mais que um poste de iluminação avariado no passado. Alto, forte e chato, mas sem conseguir iluminar muito. A sua entrada fez passar Nani para a ala e Cédric passou a ter mais apoio (ou apoio de maior qualidade) e isso ajudou defensivamente (a mostra como uma mudança táctica não tem que ser óbvia: a entrada de um avançado beneficiou a defesa). por outro lado, com Éder a atormentar o pequenito Umtiti ou o cansado (e parcialmente lesionado) Koscielny, era possível voltar a ter a opção das bolas longas. Portugal passou a ter mais uma via de saída para o ataque, à qual se adicionava a condução de bola de Nani (ou a de João Mário, que já estava presente antes) pelos flancos.

 

Deschamps tinha nesta altura feito entrar Gignac para o lugar do ineficaz Giroud. Gignac é mais móvel mas menos propenso a jogar com os colegas de equipa, mas também mais capaz de mudar o jogo num lance individual. Perto do fim do jogo foi quase isso que fez. A sorte, mais uma vez, bafejou Portugal e a bola foi ao poste e caiu calmamente nos pés de William "Xanax" Carvalho. A táctica francesa, essa, não mudava, e toda a gente se perguntava o que estava Martial a fazer no banco.

 

Em termos tácticos estava já tudo feito o que se iria fazer. Portugal não tinha mais opções para mudar o estilo de jogo e ficava tudo nos pés e pernas de quem estivesse em campo. Deschamps só fez entrar Martial em desespero depois do golo português. No período do prolongamento até ao golo pouco havia a dizer além de mais do mesmo. A defesa portuguesa foi-se aguentando, Guerreiro demonstrou que deveria ser o marcador oficial de livres da equipa, Rui Patrício foi continuando a fazer o melhor jogo da sua carreira.

 

A única curiosidade táctica da entrada de Martial foi a saída de Sissoko, consistentemente o melhor francês. Até aqui Deschamps estava reluctante em remover Pogba ou Matuidi, mesmo quando aquele continuava a ser essencialmente um médio defensivo e não contribuía para o ataque. A linha média de Deschamps fez-me lembrar a Inglaterra de Eriksson de 2004, com Beckham, Gerrard, Lampard e Scholes. Beckham era o ala que caía por vezes para dentro (leia-se: Sissoko), Lampard e Gerrard os dois jogadores de características semelhantes que deviam equilibrar-se mutuamente mas cabavam por se anular (Pogba e Matuidi) e Scholes o médio patinho feio, enfiado na esquerda quando a sua melhor posição era mais avançado no centro (Payet). Na altura o brilhantismo de um Rooney com 18 anos de idade tinha ajudado. Desta vez era Griezmann. Funcionava por vezes, mas noutras só servia para tornar o ataque inofensivo.

 

Não foi isso que sucedeu ontem à noite. A França continuou a ser perigosa, especialmente devido à qualidade individual dos seus jogadores. Colectivamente, contudo, não soube aproveitar essa qualidade. Há no entanto uma boa base e a França deverá poder ser um dos grandes candidatos no mundial de 2018.

 

Os jogadores

Não faço análises um a um, simplesmente genéricas. Os melhores foram Patrício, Pepe, Fonte e Carvalho. Difícil dizer qual o melhor, mas o único essencialmente sem falhas foi Patrício, na posição mais implacável de todas. Perto andaram Guerreiro e João Mário. Nani melhor ou quando foi para o flanco mas soube ser um capitão importante em campo depois da saída de Ronaldo. Ronaldo, esse, foi o capitão fora do campo que não parecia ser nele.

 

Éder: de vilipendiado por meio mundo (eu incluído) a maior herói da nossa história futebolística. Nunca tinha marcado num jogo oficial e fê-lo no jogo mais importante que provavelmente irá jogar. Não importa se não voltar a fazer nada de importante. Se existir justiça, terá um lugar nas estruturas das selecções enquanto viver. E espero que nunca mais volte a pagar uma grafada ou um golo (sim, muito espirituoso que sou) em Portugal.

 

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