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Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

Balanço ao Europeu de Portugal

Começo logo pela primeira confissão: não queria Fernando Santos como treinador quando Paulo Bento foi despedido. A razão era a suspensão que lhe pesava sobre a cabeça. Considerava que a mesma poderia colocar em causa o seu trabalho e poderia complicar desnecessariamente a vida à selecção. Felizmente foi encurtada e não teve consequências.

 

Segunda confissão: critiquei seriamente o estilo de jogo português. Nas eliminatórias consegui entender a opção de se focar na segurança defensiva mas no torneio entendi que não haveria necessidade, dado que havia também mais tempo para treinar os jogadores e criar um estilo mais atacante e fluido.

 

Feitas as confissões, as avaliação genérica.

 

 

O treinador: Fernando Santos

Foi o nosso melhor elemento. Continuo a não gosta do estilo de jogo, mas ninguém no mundo pode negar o resultado final. Foi acima de tudo pragmático e ambicioso, duas qualidades que nunca teremos realmente encontrado nos nossos seleccionadores no passado. Pragmático a aceitar as limitações nas opções à sua disposição e na forma como era necessário descartar escolhas iniciais. Ambicioso por ter tido um discurso, desde o início, não de ambição de "lutar pela vitória" mas de dizer que ia vencer. Poderia ter corrido mal. Voltou como herói.

 

Vários momentos vêem me à cabeça e que definiriam Fernando Santos neste europeu. Penso em três:

1. Quando fez entrar José Fonte. Deu a titularidade a um jogador com pouca experiência de selecção mas que complementou perfeitamente Pepe. Deu qualidade de passe à defesa, não complicou e deu estabilidade. Gosto muito de Ricardo Carvalho, mas ao contrário do que muito se disse, a sua idade notou-se muito. José Fonte equilibrou a defesa.

2. Quando fez entrar Éder. Fernando Santos levou Éder talvez porque teria que levar algum ponta de lança e Éder, entre as parcas opções ao seu dispôr, seria o melhor (ou menos mau) e oferecia características diferentes (altura e força). Na final fê-lo entrar não porque pensasse que Éder mudaria o jogo por si mesmo, mas pelo que a sua entrada ofereceria tacticamente. Não jogou para os penalties (tirou Sanches, que tinha marcado irrepreensivelmente o seu contra a Polónia) e demonstrou vontade de vencer. A equipa percebeu-o e, com a mudança táctica, conseguiu equilibrar o jogo.

3. Quando decidiu aceitar que, mesmo que pudessem ser menos a seu gosto, valia a pena ter o trio do Sporting e que apesar da juventude, Renato Sanches oferecia algo de diferente. Assumiu que tinha errado os cálculos e fê-lo de forma calma e simples, sem histrionismos (como Scolari), teimosia (Paulo Bento) ou ambos (Queirós). A equipa entendeu-o.

 

A equipa

O mais curioso é que a equipa foi construída tão a contra-senso. Dois alas como pontas de lança. Dois médios centro a alas. Quatro médios centro talentosos na posse de bola mas quase sem liberdade de expressar o talento. Um central (Fonte) e dois laterias sem grande experiência mas sem que isso se notasse. Uma equipa a transbordar de talento que venceu por se ter apoiado em tenacidade e preserverância. Uma one man team que venceu a final quando esse homem saiu. Um capitão que parecia não liderar nada até que saiu do campo e demonstrou essa liderança e essa vontade de vencer contagiante.

 

Este Portugal nunca irá convencer os puristas e mesmo dentro de alguns anos será visto desfavoravelmente em relação à Grécia de 2004 (essa Grécia tinha que jogar assim, era a única opção). Os portugueses não ligarão certamente, mas o truque provavelmente não será repetido. Priemiro porque Portugal não pode contar com os pequenos momentos de sorte (procurados mas que têm que suceder), segundo porque outras equipas negarão agora a Portugal a opção de jogar da mesma forma.

 

Os jogadores

Ronaldo é Ronaldo e, apesar de eu já ter ouvido pessoas a perguntar se ele se retiraria da selecção agora que venceu um troféu, penso que isso não irá suceder. Ronaldo é viciado em jogar e gosta obviamente da selecção. É ainda mais viciado em genhar e agora quererá, por excessivo que isso pareça, vencer o próximo mundial. Neste europeu ele foi quase periférico, mas quando surgiu foi importante. Falhou golos em catadupa nos primeiros jogos, mas os que fez, e as assistências que deu, foram fundamentais. Como líder fora das 4 linhas (penalties contra a Polónia, final) soube ser o "irmão mais velho" que já vi chamrem-no na imprensa internacional. Nunca será um líder nato, mas a sua vontade de vencer é contagiante.

Pepe terá sido o melhor jogador do europeu, a par com Griezmann. Foi quase intransponível, foi líder da defesa e deu o mote. José Fonte foi o seu complemento perfeito, especialmente na calma que deu com a bola.

Raphäel Guerreiro foi simplesmente o melhor lateral esquerdo do europeu e terá roubado o lugar a Coentrão, mesmo quando este regresse das suas lesões. Só espero que comece a ter permissão para marcar livres e que Thomas Tuchel não o faça jogar na ala.

Nani foi um digno sub-capitão e um excelente complemento para Ronaldo. Correu, explorou os espaços e, sem possibilidade de complicar, foi extremamente eficiente. O Valencia teria muito a ganhar se lhe der oportunidades como segundo ponta de lança.

Renato Sanches foi uma revelação. Sabíamos que tinha qualidade, mas uma época é má conselheira. No europeu mostrou que pertence a este nível. A sua confiança com a bola é a sua principal arma. Se polir as suas decisões, será um enorme jogador.

William Carvalho, João Mário e Adrien Silva foram importantes como trio. Nenhum se destacou especialmente, na minha opinião, mas mostraram as qualidades que têm e foi óbvia a forma como se procuravam uns aos outros. Em certos momentos isso foi importante.

Rui Patrício é um excelente guarda-redes, mas não excepcional. Esteve em crescendo no europeu mas explodiu na final. Não foi uma questão de ter parado tudo, foi antes uma questão de ter dado uma enorme confiança por parecer instransponível. Pela primeira vez não defendeu simplesmente aquilo que tinha que defender. Defendeu também aquilo que não tinha nada que defender.

Os restantes: pode parecer pouco, mas Fernando Santos fez entrar todos os jogadores de campo que levou. Apenas os guarda-redes nunca saíram do banco. Isso significa que todos contribuíram. Nalguns casos, como na meia-final, até se jogou com vários jogadores de fora (William Carvalho e Pepe, por exemplo). Não se notou. E esse é o maior elogio que se pode fazer à equipa.

 

O futuro

No passado disse e escrevi várias vezes que Portugal não era uma selecção de títulos e que se deveria concentrar em jogar bem, indo a quartos de final e meias finais e encantar os espectadores. Optar por um jogo feio só fazia sentido vencendo. Fernando Santos conseguiu-o. Agora tem que olhar para o caminho ainda a fazer. A defesa necessita de uma renovação profunda. Pepe e José Fonte ainda se aguentarão uns tempos mais, mas os que os substituam ou não são nada de especial (Carriço ou Neto) ou são jovens ainda com necessidade de provar a sua qualidade a este nível (e a posição de central é mais implacável que a de médio, como com Sanches).

Fernando Santos terá que continuar a renovação e continuar a procurar soluções. Será também necessário apontar objectivos. No próximo ano: tratar a Taça das Confederações como um troféu importante ou uma inconveniência que só serve para estragar as preparações dos jogadores? Sacrificar desde o início a beleza do jogo em favor de resultados ou tentar optar por uma melhoria do estilo e fazer os sacrifícios apenas em caso de necessidade? Estas são perguntas importantes que Santos e a Federação (e, assume-se, os jogadores mais experientes) terão que responder.

Pessoalmente gostaria de ver a equipa a jogar novamente de forma mais fluida, mas atacante, usando o talento à sua disposição. Agora já sabe que pode vencer sem Ronaldo e isso só pode ser benéfico para resolver o problema que apontei no passado. Deve no entanto actualizar-se e procurar maximizar as características dos jogadores existentes, não sacrificando um para fazer brilhar outro(s) (vejam-se Pogba e Griezmann, cujas características Deschamps só a espaços conseguiu explorar em simultâneo). A vitória que Portugal desejava já lá está. Agora há que acautelar a outra função do seleccionador: preparar o futuro. E o futuro é sempre acerca do que vem depois.

 

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