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Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

Balanço do Euro 2016

E assim terminou o primeiro europeu com 24 equipas. Para mim, que comecei a ver os mundiais em 1986, com este memso formato de 24 equipas, foi como um regresso ao passado. Não foi, no entanto, um regresso agradável. O conceito das 24 equipas era para mim na altura algo de estranho, pouco matemático. Hoje, sendo fácil a compreensão do conceito, torna-se ainda mais desagradável. Como muitos, considero que este formato terá sido, pelo menos em parte, responsável pela baixa qualidade de um torneio que terá sido o pior que vi desde o Itália '90.

 

 

O formato a 24

O formato era conhecido e testado e tinha sido abandonado pela FIFA em 1998, em parte por um desejo de expansão, em parte por reconhecerem que era um sistema desagradável. Confesso que nas qualificações deixou os grupos mais abertos, com equipas que à partida estariam menos motivadas por pensarem que não teriam hipóteses a conseguirem qualificações improváveis e alguns outros favoritos a serem complacentes e até eliminados (Holanda).

 

Já no Euro em si isso levava ao oposto. Enquanto na qualificação para o Euro a ousadia poderia ser recompensada (apesar da expansão, os lugares de qualificação ainda eram menos de 50% dos disponíveis nos grupos), no Euro era uma atitude defensiva que ajudaria. Era possível perder dois jogos e conseguir a qualificação (Irlanda do Norte) ou empatar os três jogos e seguir em frente (com Portugal a acabar como campeão). Claro que isto não era uma garantia de jogos aborrecidos, mas se uma equipa se preparasse para ser defensiva na fase de grupos, o que a levaria a mudar de estilo e abordagem nas eliminatórias? O Irlanda do Norte - Gales demonstrou-o, com os norte-irlandeses a defenderem e os galeses a parecer a espaços algo inseguros sobre o que fazer para atacar.

 

Seja como for, as eliminatórias tendem a ser jogos de poucos golos e os campeões possuem habitualmente a melhor defesa nas eliminatórias. A França foi a última nação campeã - em 2000 - com mais que um golo sofrido nesta fase, sendo que Grécia e Espanha (duas vezes) não sofreram qualquer golo. Com algumas equipas apuradas por força das suas prestações quase exclusivamente defensivas, não foi de admirar que os jogos se tornassem tão fechados.

 

Há quem fale numa futura expansão para 32 equipas. Embora eu não goste de expansões só por expandir, preferiria tal opção ao sistema de 24 equipas. Em qualquer dos casos, 16 continua a ser, na minha opinião, o sistema ideal.

 

As tácticas

Tempos houve em que os europeus e mundiais eram períodos de inovação táctica, onde novos conceitos eram introduzidos ou simplesmente dados a conhecer a uma plateia global. Hoje em dia isso é feito em campeonatos completamente cobertos por televisão e internet, em torneios como a Champions League e Europa League, onde os melhores jogadores e treinadores estão presentes, e os torneios de selecções tornam-se menos relevantes neste aspecto.

 

Um aspecto em que estes torneios ainda são importantes é em demonstrar a importância de tácticas bem aplicadas. Como os seleccionadores não têm a opção de contratar jogadores para poder jogar na sua táctica preferida e porque os jogadores não têm muito tempo para jogar juntos, tácticas simples e familiares para os jogadores tendem a ser preferidas. Os treinadores mais bem sucedidos normalmente concentram-se em definir de forma clara o desenho táctico, as instruções dos jogadores e os objectivos, além de - essencial - cultivarem o espírito de grupo.

 

Este torneio demonstrou bem como um bom treinador, capaz de unir uma equipa, dar instruções claras aos jogadores e evitar complicações, pode tornar uma equipa mais que a soma das suas partes. Fernando Santos, Antonio Conte, a dupla islandesa, Chris Coleman (Gales) demonstraram-no claramente. Marc Wilmots também, mas pelo lado oposto.

 

As tácticas mais bem sucedidas terão sido variações do 3-5-2 e 4-4-2. A primeira foi adoptada por Itália, Gales ou até a Alemanha no jogo contra a Itália. Todas estas variações foram bem sucedidas. O 4-4-2 acabou por ser a táctica da final, com Portugal a adoptá-la todo o torneio e a França a usá-la nos três últimos jogos. Nem todas as variações foram contudo iguais, sendo que apenas o 3-5-2 alemão dos quartos de final com a Itália não foi usado para tentar explorar as características dos melhores jogadores. Itália tentou aproveitar a defesa BBC, Gales fê-lo por Bale e Ramsey, Portugal para servir Ronaldo e Deschamps optou pelo 4-4-2 para envolver mais Griezmann.

 

Isto demonstra claramente que é importante não complicar. Todas estas equipas deram instruções simples aos seus jogadores, incutiram um espírito de grupo bastante forte e potenciaram a influência das suas estrelas. Aqueles que ficaram presos a uma táctica ou abordagem acabaram por sofrer por isso.

 

Simpatias e antipatias

Os islandeses não demonstraram simplesmente que um grupo de jogadores semi-profissionais, com enorme espírito de grupo, boas tácticas e bem rotinados podem ir longe. Demonstraram também espírito competitivo e desportivo (atacar quando a perder por 4-0 não é para todos) e introduziram a "Viking Clap". Os galeses seriam a sensação se não fosse por Islândia e chegar às meias-finais, independentemente de sorteios favoráveis, não é para qualquer equipa. Os italianos correram tanto que provavelmente correm agora ultra-maratonas para descomprimir. Éder é a maior história de redenção que eu consigo recordar.

 

Do lado das antipatias começo logo por Wilmots, que conseguiu desbaratar uma geração única e tornar a equipa ainda mais desconexa do que aquilo que era na qualificação. Quando Hazard e de Bruyne, por mero acaso, conseguiram expressar-se, todas as falhas da equipa foram esquecidas. Quando viram equipas com mais qualidade e organizadas pela frente acabaram por se desmoronar completamente. Os ingleses perderam contra a Islândia e, mais que isso, continuaram a enjoar com o seu ciclo de expectativas ridículas, críticas desmesuradas e desilusão profunda. Dá vontade de lhes dar um par de estalos. A Rússia veio ver as modas. Espero que ao menos tenham tomado notas para 2017 e 2018. A Turquia esqueceu-se de aparecer nos dois primeiros jogos. No último foram excitantes, o que só os tornou mais irritantes.

 

Depois há Portugal, o campeão mais irritante de que há memória (a Grécia beneficia do tempo ou das expectativas reduzidas ou de ambas). 6 empates e uma vitória. Uma estrela que deslumbrou em 65 minutos e irritou quase todo o resto do tempo. Estranha, pouco consensual e irritante na sua atitude. Não fosse eu português e, admirando o espírito, também estaria irritado. Foi um campeão merecido, mas também de acordo com um torneio algo estranho.

 

Estrelas

Há para mim dois jogadores que seriam os candidatos óbvios a melhor jogador do torneio: Pepe e Griezmann. O primeiro foi a rocha em que a defesa de Portugal assentou, especialmente depois da fase de grupos. O segundo foi o melhor marcador em Europeus desde há muito e teve momentos não só de brilhantismo como também emprestou alegria.

A estes juntam-se outros: Neuer vs Buffon foi o grande duelo individual do torneio. Dois guarda-redes brilhantes que não mereciam ir para casa. Não foi só a qualidade das defesas, foi a sua presença que os marcou como gigantes.

Nos italianos agradaram-me Pellè pela enorme alma e pela vontade de se sacrificar pelos outros, memso quando o talento era menor que outros nomes do passado; e Bonucci, o defesa com a melhor qualidade de passe do europeu (Boateng e Hummels incluídos) e que não compromete nunca quando tem que defender.

Entre os alemães, a falta de Boateng foi notória quando saiu. Era um construtor de jogo a partir da defesa e tè-lo na defesa era quase o mesmo que ter um jogador extra. Já Kroos parece ter sido possuído pelo espírito de Xavi, mas em maior tamanho. Muito maior.

Krychowiak pode ser hoje em dia considerado o melhor médio defensivo europeu. É um mistério para mim como demorou tanto tempo a que os grandes clubes se tenham decidido a pegar nele. Foi necessário o seu treinador anterior (Emery, no Sevilha) ir para o PSG para a transferência finalmente acontecer.

Ramsey foi excelente no meio campo galês, com excelente suporte de Allen. A sua falta fez-se sentir de forma muito clara. Bale esteve também bem, especialmente na forma como assumiu o manto de líder e trabalhou quando não pôde brilhar. Entre os "pequenos" há que destacar aqueles três islandeses: Qualquercoisasson, Algodogenerosson e Ooutrosson.

Király brilhou e não foi pelas calças ou idade. Contra a Bélgica a Hungria poderia ter estado a perder 5-0 ao intervalo. Dzsudzsák esteve muito bem e fez lembrar o jogador que eu me lembrava no PSV Eindhoven. Portugal sofreu com ele.

No meio da calamidade belga, Radja Nainggolan demonstrou que era o único naquele meio-campo que compreendia o conceito de trabalho de equipa. Correu, passou, cortou, marcou. Se a Bélgica parecia meia equipa a ele o devia. Sem ele nem isso.

 

Desilusões

A Bélgica tinha uma equipa de sonho. Fez-nos passar o tempo a pensar se seriam uma daquelas selecções do resto do mundo dos anos 70, onde os jogadores nunca jogaram juntos e mal conseguem comunicar. Quando Hazard e De Bruyne ligaram, foram a espaços irreprimíveis. Quando não - a mior parte das vezes - pareceram estranhos. Ainda não é uma oportunidade perdida, mas parecem estar a estragar ainda mais que Portugal a geração que têm.

A Inglaterra chegou, pela primeira vez desde há muito, com expectativas que tinham boa razão de ser. Parte do onze tinha jogado já em conjunto nos clubes (Tottenham e Liverpool), havia vários jogadores excitantes e a possibilidade de integrar diversas soluções. Hogdson tentou fazer tudo ao mesmo tempo e deu asneira. A certa altura valerá a pena fazer a escolha da equipa por likes no Facebook. Certamente que não pode ser pior.

A Croácia desiludiu pela forma como jogou e foi eliminada. Na fase de grupos joagram um futebol fantástico, não se atemorizaram contra a Espanha e só um festival de golos falhados e a estupidez dos seus adeptos os impediu de esmagar a República Checa. Chegou Portugal e atemorizaram-se, não atacaram e foram tão repsonsáveis pela cura da insónia como os portugueses. E aquele penteado de Perišić...

A Áustria tinha tudo para ser uma das equipas mais surepreendente. Capitulou contra a Hungria, jogou de forma estranha contra Portugal e desapareceu contra a Islândia. E Alaba, provavelmente o jogador de topo mais completo do mundo, parece ter ficado em casa e enviado um sósia.

A Suécia conseguiu ir-se embora sem marcar um único golo (o único que teve foi um auto-golo). Zlatan vai-se embora sem qualquer glória, embora até tivesse trabalhado para que assim não fosse.

Del Bosque despede-se assim da selecção (e provavelmente do futebol) com uma desilusão. A queda dos espanhóis não é em si uma grande desilusão: não estão ao mesmo nível do passado e até nem jogaram demasiadamente mal. Só que a incapacidade (ou falta de vontade) de regenerar a equipa e fazer entrar alternativas foi aquilo que mais me desiludiu na selecção espanhola. Especialmente quando a perder eu esperaria a entrada de sangue novo como Koke ou Thiago. Del Bosque falhou nisto e terá estragado um pouco a sua despedida.

 

Futuro

O próximo Euro não será em nenhum país, antes será distribuído. Quando isso foi anunciado pareceu.me uma excelente ideia. Hoje, apesar de considerar que as razões continuam a ser válidas, penso que não são assim tão importantes. Mais que em mundiais, os Europeus são um momento perfeito para a mistura de adeptos de diferentes países. Com a multiplicação de locais, a mistura de adeptos será minimizada. Se hoje há quem planeie uma única viagem ao país anfitrião e lá fique por umas semanas, deslocando-se nos transportes públicos ou de carro, no futuro será improvável que haja muita gente capaz de andar a comprar bilhetes de avião com dois ou três dias de antecedência à medida que se saiba onde o próximo jogo da sua selecção será.

Deixaremos provavelmente de ver cenas como as que os irlandeses protagonizaram. O "Viking Clap" seria visto uma vez, mas provavelmente não mais. Adeptos de países pequenos ou pobres ficarão invisíveis. Haverá a possibilidade de habitantes locais ver jogos, mas a atmosfera não será a mesma, penso.

 

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