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Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

Depois das Confederações e a um ano do Mundial

Afazeres impediram que eu fizesse qualquer comentário final à Taça das Confederações, mas depois de ler o comentário do Pedro Correia lembrei-me disso. Vamos apenas por pensamentos que me ficam.

 

 

Alemanha completa

Joachim Löw tinha decidido levar uma equipa algo experimental, com apenas alguns jogadores já completamente estabelecidos na selecção principal aos quais adicionou vários jovens e outros jogadores mais experientes mas raramente vistos na selecção. Chamar-lhes "equipa B" é no entanto enganador. Kimmich, Hector e Draxler podem hoje ser considerados titulares naturais (mesmo que não indiscutíveis). Ter Stegen seria titular se não tivesse o monstro Neuer pela frente. Mustafi foi campeão mundial em 2014 e esteve também no Euro 2016. Can também fez parte desta última equipa e Rüdiger tem já sido com frequência. Aliás, 8 dos jogadores tinham já pelo menos 10 internacionalizações antes do torneio e existia bastante experiência.

 

Não deixa no entanto de ser assustador que uma equipa sem experiência de jogar junta tenha vencido de forma tão sólida o torneio. Mesmo que na ausência de outras grandes selecções, a Alemanha demonstrou enorme solidez colectiva, soube aproveitar os erros alheios e aguentar a pressão dos adversários. Ou seja, demonstrou as habituais características das selecções teutónicas, mas adicionou-lhes as mais recentes, como a qualidade técnica, o passe, a pressão alta e a fantasia de alguns jogadores.

 

Quando esta equipa tiver à disposição as estrelas que faltam - tomemos fôlego: Neuer, Boateng, Hummels, Gündoğan, Khedira, Kroos, Weigl, Özil, Sané, Müller e Reus, numa escolha rápida e assumindo que estão todos disponíveis (algo questionável) - e a eles adicionarmos algumas estrelas mais jovens (que tenham ou não ido à Taça das Confederações) que ainda poderão conseguir chegar ao Mundial - Max Meyer, Mahmoud Dahoud, Brandt, Henrichs, Süle, Goretzka, Werner - vemos a selecção (provavelmente) mais impressionante do Mundial da Rússia. Claro que isto não significa que Löw vencerá novamente, mas será difícil contestar que os alemães são os indiscutíveis favoritos.

 

Chile impressionante mas pouco penetrante

Ao contrário do Pedro, eu considero o Chile uma equipa bastante impressionante. Não se vence a Copa América (duas vezes, mesmo que a do ano passado tenha sido algo diluída) por puro acaso. Sorte pode ajudar, mas não basta. Aliás, nisso o Chile assemelha-se a Portugal: uma equipa imperfeita, com algumas estrelas, mas que devido a um jogo colectivo forte e alguma sorte conseguiu vencer a sua competição continental. Só que o Chile tem ainda menos estrelas que Portugal. Apenas Bravo, Sánchez, Vidal e Medel jogam em equipas que se podem considerar de topo. Depois deles apenas Aránguiz (Bayer Leverkusen) estará numa equipa de maior renome.

 

Actualmente poucas selecções haverá que consigam o nível de fluência táctica e técnica que estes chilenos, cujo núcleo joga junto há mais de uma década, conseguem atingir. Os seus níveis de energia são também enormes e foi quase inacreditável ver a forma como pressionaram a Alemanha até ao fim no jogo da final. A sua principal falha é a falta de jogadores capazes de contribuir com golos. Alexis Sánchez é o melhor marcador, seguido de Vargas e Vidal, mas mais nenhum jogador chega aos 10 golos na sua carreira pela selecção. E se contra equipas mais pequenas Sánchez se pode ocupar da finalização, contra equipas mais fortes ele é necessário em terrenos mais recuados (aparece por todo o lado) e isso limita o seu impacto no marcador.

 

Também não seria má ideia lembrar que o Chile deveria ter-se apurado para a final sem necessidade de penalties e prolongamento, tendo tido um penalty ignorado mesmo no final do jogo com Portugal (estou para ver as discussões sobre o VAR no próximo ano na Liga Portuguesa nestas situações). Não sabemos o impacto que a decisão poderia ter tido na final, com um Chile mais fresco (sem esquecer que o penalty poderia ter sido falhado), mas isso são conjecturas. A realidade é que o Chile é uma selecção que sabe como se vencem torneios, seja em penalties, prolongamentos ou com 7-0 a equipas perto do seu nível, o Chile sabe o que é necessário. E isso viu-se aqui. No próximo ano a equipa terá mais um ano nas pernas e será quase impossível vencer o mundial, mas irá certamente causar dissabores.

 

Outras selecções

Neste torneio ficou claro que o nível das diferentes equipas, mesmo perante tão pequena amostra (8 equipas), é bastante distinto. Nova Zelândia e Rússia (apesar do esforço desta por jogar em casa) não pertencem a este campeonato. Camarões é uma selecção com talento e potencial, mas que aproveitou o torneio essencialmente para ganhar experiência. A Austrália demonstrou que a escolha por participar nas competições asiáticas tem dado os seus frutos. Os australianos demonstraram organização, flexibilidade táctica e capacidade de causar problemas. Se Austrália e Nova Zelândia tivessem trocado de grupo, seria muito possível que tivessem chegado às meias-finais.

 

O México é um caso diferente. Tem alguns jogadores de enorme qualidade, como Javier Hernandez, Andrés Guardado, Carlos Vela ou até os irmãos dos Santos, mas continua a ser uma selecção ainda desequilibrada (não há melhor formade ver a falta de complementariedade que a presença continuada de Rafael Márquez na equipa). E no entanto uma equipa capaz de causar problemas e mesmo a derrota por 4-1 contra a Alemanha nas meias-finais foi enganadora, com os mexicanos a encostarem os alemães à sua área de forma continuada num domínio que não foi consentido. Está no entanto ainda longe do potencial que uma nação com tal tamaho e implantação do futebol pode ter. O máximo que continuarão a poder aspirar no mundial será sair da fase de grupos e, talvez, chegar aos quartos de final.

 

Portugal

Há coisas que estão claríssimas na selecção portuguesa. a primeira: Pepe é o único central de top da selecção portuguesa e o máximo a que este conjunto de jogadores pode aspirar é a um bom período de forma de José Fonte. Há uma certa necessidade de ver Rúben Semedo e Paulo Oliveira terem boas épocas e subirem um (ou dois) degraus para que o centro da defesa chegue ao nível do resto da equipa. Nas laterais Portugal está bem servido. Cédric Soares foi mais impressionante e teve um torneio excelente (terá sido o melhor português), defendendo e atacando com enorme qualidade. Do lado esquerdo Raphäel Guerreiro é titular e, fora uma baixa de forma ou lesões, teremos segurança. Seria bom que Coentrão reencontrasse a sua melhor forma no Sporting para haver alternativa, no entanto, embora os laterais direitos alternativos (como Cancelo) poderiam também jogar à esquerda.

 

Outra certeza: Bernardo Silva tem que jogar de início. A sua capacidade de drible e encontrar espaços é fundamental para aliviar a pressão adversária e desequilibrar o adversário, forçando a defesa a mover-se na sua direcção e abrindo espaço no lado esquerdo para mudanças rápidas de flanco. Além disso, as suas combinações com Cédric Soares foram talvez o melhor método de ataque da equipa. Entre os outros jogadores falta alguma variedade no que diz respeito a construção de jogo. Adrien Silva tem grande variedade de passe, mas é mais um canivete suíço que um abre latas. João Moutinho tem mais capacidade de incisão, mas está longe de ser um criativo. André Gomes cumpriu um pouco essas funções no passado mas também não são essas as suas características. O jogador mais próximo de poder jogar como tradicional "10" seria Bernardo Silva, mas é provável que seja necessário mantê-lo resguardado na ala. A disponibilidade de jogadores neste molde poderá levar a uma mudança na abordagem à criatividade.

 

No ataque André Silva é outra necessidade. Tem golos nas botas (e na cabeça) mas a sua principal função é a criação de espaços para Cristiano Ronaldo. O movimento de André Silva arrasta defesas e abre buracos na defesa para Ronaldo poder explorar os seus instintos predadores, mas sempre com a consciência que deixá-lo livre pode causar dissabores.

 

Nas alas o que me deixou confuso foi a insistência em colocar Gelson Martins na ala esquerda. Embora seja comum ver hoje extremos invertidos (dextros na esquerda e canhotos na direita), isso é feito normalmente com a intenção de ver o jogador a flectir para o meio e abrir espaço na ala para a subida do lateral. Neste caso isso tornou-se estranho, dado que Gelson Martins jogou (pelo que notei ao longo da época) sempre pela ala direita e pode ser visto como um ala clássico, que desce à linha e cruza para os jogadores na área. A sua qualidade de drible é indiscutível e a sua velocidade consideravelmente superior à de Quaresma e Nani. A ala esquerda pareceu ser um ambiente estranho, onde não se sentia à vontade. Talvez algo a explorar no futuro, mas na selecção não se devem inventar novas posições para os jogadores, antes explorar os seus pontos fortes.

 

Em termos gerais, não deixa de ser curioso que Portugal tenha alcançado glória e troféus precisamente na altura em que abandonou as suas características mais típicas: a sua geração de ouro abandonou o palco; o seu melhor jogador de todos os tempos começa na rota descendente da sua carreira; e abandonou o sistema mais reconhecível de jogo que popularizou a equipa, com alas criativos e um desenho de 4-3-3. Hoje Portugal encontrou finalmente o sistema que maximiza o uso de Ronaldo e este necessita de um 4-4-2 com outro ponta de lança para finalmente ser eficaz. Portugal é hoje mais sólido defensivamente mas menos criativo que em qualquer momento dos últimos 25 anos.

 

Para o próximo ano, Portugal precisa de sorte na conjugação de alguns factores:

  • É necessário que Pepe não se lesione e receba apoio através da emergência de pelo menos mais um central de qualidade;
  • Bernardo Silva, André Silva (e outros potenciais jogadores que se transfiram para fora do país onde jogam hoje) terão que se adaptar, receber suficientes minutos de jogo para manterem a forma e não se lesionar (e, igualmente, não sofrer por começar a época tarde depois deste torneio);
  • Cristiano Ronaldo terá que continuar a gerir os seus minutos de jogo para poder chegar ao final da época como nesta;
  • Coentrão necessita de recuperar pelo menos parte da forma e Guerreiro necessita de se manter saudável - neste momento não há alternativas viáveis (Eliseu não está ao mesmo nível e não está a ficar novo);
  • Pelo menos mais um jogador criativo necessitará de emergir para criar alternativas na construção do jogo e começar a fasear a saída de jogadores como Nani ou Quaresma, que ainda têm momentos de qualidade mas são cada vez menos fiáveis.

Depois disso é preciso que Portugal volte a ter sorte como no Europeu do ano passado. Entre bolas no poste a minutos de terminar o último jogo da fase de grupos, equipas mais fáceis que no outro lado do quadro, equipas que pareceram estranhamente apáticas depois e terem sido convincentes anteriormente ou exibições únicas na final, Portugal necessitou de uma estrela muito grande a brilhar. Para que possa sequer sonhar com o sucesso dentro de um ano, é necessário que regresse. Sem isso, voltaremos a participações honradas, mas talvez menos bonitas (porque com um futebol mais aborrecido) que no passado.

 

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