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Comentador de Bancada

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Equipas de sonho - Benfica 1988-94

Sendo eu do Benfica (sim, eu sei o que escrevi antes), tinha que começar por aqui.

 

Neste período o Benfica venceu apenas 3 campeonatos, mas deslumbrou-me e fez sonhar (mesmo que tenha quase iniciado a sua própria destruição). Chegou a duas finais europeias (que perdeu, contra o PSV em penalties em 1988; e perdeu 1-0 contra o super-Milan em 1990). Venceu apenas uma Taça de Portugal e 3 Supertaças Cândido de Oliveira. Fraco pecúlio para uma equipa de sonho que ainda beneficiou de um certo apagamento do Sporting. É verdade. O FC Porto estava nessa altura a entrar na sua marcha de máquina de títulos e era fortemente consistente. O Benfica, no entanto, ia-me fazendo sonhar com o seu futebol por vezes louco.

 

Os treinadores nesta fase foram Toni (1988-89), Sven-Göran Eriksson (1989-92) e outra vez Toni (1992-94). Toni levou uma equipa consideravelmente medíocre à final da Taça dos Campeões Europeus, tendo perdido uma final contra uma equipa do PSV que, vista à distância, era consideravelmente superior (continham 5 holandeses que se sagrariam campeões europeus no Euro-88, 3 dinamarqueses da famosa equipa Danish Dynamite e Eric Gerets, que aos 34 anos era dos melhores laterais do mundo). Depois conseguiu vencer o campeonato e viu a chegada da primeira peça do puzzle que tornaria a equipa mais espectacular: Valdo.

 

Mozer já tinha chegado, depois veio Valdo e haveriam de chegar ainda Ricardo e Aldaír do Brasil. Mozer, depois de uns tempos no Marselha, haveria de regressar ao Benfica. De permeio vieram os suecos: Thern, Magnusson e Schwarz; e os russos: Kulkov, Iuran e Mostovói. Foi também o tempo em que certos jogadores apareceram ou explodiram: Paneira, César Brito, Paulo Sousa, Rui Costa, Paulo Madeira ou Pacheco. Outros ainda foram recrutados a equipas intermédias do campeonato: Abel Xavier, João Pinto, Hélder, Isaías, William, José Carlos. Alguns deles brilharam, outros foram simplesmente secundários sólidos. Por fim chegou o zénite com a machadada final nas finanças: Paulo Futre.

 

Era uma equipa capaz do melhor e do pior e nisto não havia melhor exemplo que os dois guarda-redes: Silvino e Neno. Em termos de qualidade pura estariam mais ou menos ao mesmo nível. Neno era capaz de defesas inacreditáveis e era incrível quando enfrentava avançados isolados, mas qualquer cruzamento (e canto) causava pânico. Silvino era mais seguro no jogo aéreo e comandava melhor a área, mas menos forte nos refelxos e velocidade. Ambos eram capazes de serem essencialmente um muro em frente da baliza nos seus melhores dias, mas também eram excelentes exemplos de queijos suíços nos piores.

 

Era por isso necessário compensar com um jogo mais atacante e aqui tinha o Benfica armas incríveis. Os jogos loucos que o Benfica ganhou foram muitos, sendo os meus preferidos o clássico 4-4 em Leverkusen, o 2-3 contra o Boavista, o 1-3 contra o Arsenal, o 3-6 em Alvalade ou o 5-2 na final do Jamor de 1993 contra o Boavista. Esta última foi vista como o culminar daquilo que o Benfica tinha feito ao construir a equipa. Tinha na equipa inicial Mozer, Schwarz, Paneira, Sousa, Rui Costa, João Pinto e Futre com Rui Águas, Hélder, Isaías, Veloso, Neno e William a também jogarem. Foi uma equipa de sonho incomportável para Portugal e que dois anos depois já não existia.

 

Nos seus melhores tempos a equipa era o equivalente futebolístico a uma francesinha XXL acompanhada de dois litros de conhaque, 10 pastéis de nata e 20 charutos. Prazer e enfarte garantidos. Isaías rematava 10 vezes por jogo para marcar um golo a cada dois jogos. João Pinto explodiu no 3-6 mas era já um Messi antes de Messi (salvaguardadas as devidas diferenças, obviamente). Rui Costa espalhava classe, Paneira era um ala direito clássico, o famoso "falso-lento" dos cruzamentos "com olhinhos". Veloso parecia saído do Milan Lab com a sua longevidade. Paulo Sousa já demonstrava as qualidades que fariam dele o melhor médio-centro da Europa enquanto saudável. Pacheco era um cabeça quente mas por vezes irrepressível na esquerda. Futre, bem, nesse ano Futre era ainda Futre: o melhor jogador português entre Eusébio e Ronaldo.

 

Recordo coisas loucas: Futre a destruir o Boavista, Isaías a rematar sempre que via a baliza a menos de 50 metros, Rui Costa contra o Parma, João Pinto contra o Sporting, Neno contra o Sporting, Veloso a central para parar Papin (contra o Marselha), Kulkov a chegar para central e a afirmar-se como trinco condutor de jogo, César Brito a marcar duas vezes nas Antas, Abel Xavier a marcar um golaço em Leverkusen segundos depois de um colega dizer que iria estudar caso o Benfica não marcasse rapidamente, João Pinto a marcar golos de cabeça, Thern a tomar conta do meio campo sem dar a ideia de lá estar, Schwarz a jogar a médio centro e lateral esquerdo quase ao mesmo tempo, Mozer e Fernando Couto aos murros nas Antas nas barbas do árbitro que não mostrou sequer amarelo a nenhum, Paulinho Santos à procura de João PInto em todos os Porto-Benfica.

 

E sempre, sempre, aquele 3-6. Não foi só o resultado, que me agrada naturalmente mais que aos sportinguistas. Foi o jogo em si (que tenho guardado no computador) entre duas equipas cheias de jogadores brilhantes (o Sporting tinha Valckx, Figo, Sousa, Capucho, Cadete, Balakov, Paulo Torres, Iordanov, Nélson...) que atacaram de forma intensa e deram ao jogo 9 golos que poderiam ter sido muitos mais. Recordo a aposta suicida de Queiroz ao retirar Paulo Torres, criando a "Via do Paneira" e dando a oportunidade de demonstrar a milhares de pessoas como a táctica pode ser importante. Recordo que o Sporting poderia ter esmagado o Benfica na primeira meia-hora e o jogo poderia ter-se desenvolvido no sentido contrário. Só que nesse dia, nessa altura, o Benfica era uma equipa de sonho, no sentido de fazer sonhar.

 

Foi, também pela minha idade, a minha principal equipa de sonho. Profundamente desequilibrada mas apaixonante. Tal como se recordam os primeiros amores, mesmo ao fim de muitos anos de casado, recordarei sempre esta minha primeira equipa de sonho.

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