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Comentador de Bancada

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Equipas de Sonho - Dream Team 1992

Na memória dos adeptos de futebol, especialmente nestes tempos subsequentes à morte de Johan Cruijff, há a tendência de relembrar o seu Dream Team do Barcelona. Aquilo que o comum adepto de futebol que não liga a outros desportos vai esquecendo é que este nome não surgiu simplesmente do nada devido ao futebol mágico da equipa. A origem do nome remonta ao Dream Team original, o da equipa de basquetebol que os EUA levaram aos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992.

 

Hoje em dia há muitos que se esquecem, mas até 1992 o basquetebol era considerado uma modalidade amadora e como tal os profissionais não eram aceites nos JO. Os norte-americanos enviavam então apenas equipas de jogadores universitários para enfrentar os seus rivais dos outros países. Entre estes a principal oposição provinha da União Soviética que, devido ao seu sistema político, podia apresentar jogadores profissionais em tudo menos no nome (os jogadores faziam parte de equipas do exército, polícia, etc). Outros países seguiam esta regra, mesmo a oeste do Oder, usando estatuto de estudantes, professores, etc.

 

Quando em 1989 a FIBA aprovou a abertura do torneio a profissionais (por iniciativa jugoslava e com oposição soviética e, ironicamente, dos EUA), a federação americana pediu à NBA para fornecer os jogadores para a equipa. Nos anos 80 a TV por cabo estava já bastante disseminada nos EUA mas era incipiente (quando presente) noutros países. A NBA era para consumo interno ou de especialistas noutros países que fossem ao país. Como tal, a NBA não estava muito entusiasmada com a ideia de retirar férias aos seus melhores jogadores para irem jogar num torneio que não entusiasmava o seu público-alvo.

 

Apesar disso, a ideia de ver tantas estrelas concentradas numa única equipa e num ambiente competitivo atraiu o público e vários media. A única oportunidade de tal concentração era ver o All-Star Game, com as estrelas divididas em duas equipas mas sem a motivação de um jogo a doer. Os Jogos Olímpicos ofereciam uma oportunidade única.

 

 

A selecao dos jogadores teve apenas dois engulhos: um deles foi a não-selecção de Isiah Thomas, base dos Detroit Pistons (campeões da NBA em 1989 e 1990), alegadamente por Michael Jordan não gostar dele. O outro foi a selecção de Christian Laettner, o único jogador sem experiência da NBA (havia o sentimento que pelo menos um jogador deveria vir da universidade) em prejuízo de Shaquille O'Neil, embora este sentimento seja mais forte em retrospectiva do que o era na altura.

 

Havia também uma controvérsia: Magic Johnson foi escolhido para a equipa e nomeado o capitão. Magic tinha sido diagnosticado como VIH-positivo em 1991 e tinha-se retirado do basquetebol. Havia receio que os adversários (ou colegas) recusassem jogar com ele mas uma onda de simpatia pela figura, bem como a forma física que demonstrou na altura, convenceram toda a gente a arriscar.

 

Elencar a equipa toda é um exercício de futilidade. Em alguns casos estamos a falar dos melhores jogadores da história do desporto: Magic Johnson, Michael Jordan, Karl Malone, John Stockton, Charles Barkley e até Larry Bird (que tinha problemas de costas, foi escolhido devido ao seu estatuto e que se retirou após o torneio). Outros serão nomes com menos peso histórico, mas só perdem brilho pela comparação com os seus contemporâneos: Clyde Drexler, Chris Mullin, Pat Ewing, David Robinson, Scottie Pippen, eram ou estrelas nas suas equipas, as quais eram elevadas a níveis elevadíssimo com as suas contribuções (Robinson colocou os San Antonio Spurs no mapa), ou então secundários que só um nome excepcional conseguia ofuscar (como Pippen).

 

A equipa era, para colocar as coisas de forma muito simples, não só excepcional mas única. Continha os dois jogadores que tinham ressuscitado a NBA como uma liga divertida, competitiva e atraente: Magic Johnson e Larry Bird. Tinha o melhor jogador da sua geração (se bem que ainda não visto com a áurea imortal de hoje) em Michael Jordan. Tinha talvez a melhor dupla da história em Stockton e Malone. Tinha jogadores de fortíssimas personalidades, larger than life, como Jordan, Bird, Johnson, Barkley. Tinha jogadores capazes de dominar tabelas, tinha atiradores de longa distância, tinha jogadores capazes de distribuir assistências simples, complexas, espectaculares ou básicas. Tinha jogadores capazes de explodir para o cesto, tinha jogadores capazes de bloquear lançamentos a qualquer um, tinha jogadores enormes defensivamente e tinha, acima de tudo, jogadores interessados em, e capazes de, dar espectáculo sem perder a sua vertente competitiva.

 

Durante a preparação os jogadores adversários várias vezes pediam ao Dream Team para lhes assinar autógrafos e posar para fotografias. Chuck Daly, o treinador, exasperava as televisões por não pedir descontos de tempo que permitissem cumprir os compromissos publicitários (não havia necessidade). O período de preparação para o torneio era passado em Monte Carlo, com Jordan a deslumbrar todos com a sua resistência (jogava golfe de manhã, treinava à tarde e ficava horas no casino à noite) e com os jogadores a desfrutar de umas férias europeias mas nas quais não desligavam quando chegavam ao court.

 

Foi em Monte Carlo que se jogou talvez o jogo mais espectacular da era (mesmo que náo de todos os tempos): um 5 contra 5 de preparação da própria equipa em que os jogadores se dividiram de forma equilibrada e que todos levaram a sério, começando por Chuck Daly. Michael Jordan ainda hoje diz que nunca se divertiu tanto num court de basquetebol. O jornalista da Sports Illustrated que assistiu ao jogo deu-lhe o título de "The Greatest Game Nobody Ever Saw". Este jogo terá sido o catalizador para a equipa, que percebeu que mesmo que os adversários não estivessem ao seu nível, tinham que provar aos seus pares, de uma forma única, que mereciam estar ali.

 

A impressão que deixaram em Barcelona foi única precisamente porque não se pouparam. Jogaram como se os adversários fossem todos rivais de alto nível e só ocasionalmente decidiam baixar o ritmo. Nunca esqueceram contudo o espectáculo. Era a razão para os ver, para os apoiar mesmo apesar do próprio país. Outra razão foi o facto de terem sido acessíveis. Barkley passeou livremente por Barcelona e atraiu a atenção de todos, deixando-se fotografar, conversando e distribuindo simpatia. Talvez isso o tenha motivado a ser o melhor jogador da equipa. O resto da equipa notou a importância que tinham para o torneio quando viram os seus outdoors de tamanho gigante pendurados de prédios.

 

Dizer que os resultados foram desnivelados não descreve o que se passou. Se o Dream Team não facilitou, também não era composto por sádicos. Uma vez à frente por margens confortáveis, o ritmo baixava. Havia mais jogos a jogar e uma época regular depois das férias. Ainda assim, depois de vencerem os seus jogos todos por pelo menos 30 pontos e normalmente mais de 40 pontos, ao chegarem enfrentaram uma Croácia que anunciava: «Se eles estiverem num bom dia, vencem por 40 pontos. Se num mau dia, vencem por 20 pontos». Os 32 pontos foram um ponto menos que num jogo anterior com os croatas, mas era indiferente. O resultado nunca esteve em dúvida e o Dream Team, de medalhas ao peito, enfiou-se num avião de regresso umas poucas de horas depois da final.

 

O legado da equipa é difícil de medir. A popularidade da NBA explodiu no mundo inteiro depois de 1992, mas o efeito da equipa não se mede simplesmente na forma como expandiu a liga ao resto do mundo. Em 2012 os EUA apresentaram nos JO de Pequim a primeira equipa que talvez pudesse competir com o Dream Team original. Questionado sobre se a equipa de 2012 era melhor que a de 1992, como Kobe Bryant afirmava, Jordan terminou uma resposta semi-diplomática com o comentário: «Lembrem-se, eles aprenderam connosco, nós não aprendemos com eles!»

 

 É esta a essência do legado daquela equipa: a forma como demonstraram que o jogo podia ser jogado de forma espectacular sem sacrificar a eficiência. O Dream Team recebeu esse nome porque tinha uma equipa "de sonho", mas era de facto uma equipa que permitia sonhar. A ligação ao Dream Team do Barcelona de Cruijff existia porque havia um conceito semelhante: o jogo podia ser jogado de forma espectacular e permir troféus. Toda a história do basquetebol americano desde então é uma busca por este ideal. A equipa de 2012 chegou perto (ou terá ultrapassado) mas era baseada noutras qualidades, mais físicas e menos completas. A sua competitividade era no entanto semelhante, a sua fome comparável. Havia também o desejo de jogar um basquetebol espectacular, mesmo que seguindo linhas diferentes.

 

Outro efeito foi a abertura da NBA a jogadores estrangeiros. Com a exposição do basquetebol da NBA ao mundo, chegou também o oposto: a entrada mais generalizada de jogadores estrangeiros na NBA. Dražen Petrović ou Vlad Divac não foram os primeiros (havia uma longa história de jogadores estrangeiros na NBA, mesmo que muitos o fossem por terem nascido noutros territórios) mas marcaram o início da viragem. Demorou ainda vários anos, mas se hoje temos estrelas europeias como Nowitzki ou Gasol, sul-americanas como Ginobili ou Splitter ou de outras origens como Yao Ming, muito disso se deve à influência daquela equipa.

 

O maior legado não foi, no fim, o basquetebol em si, mas a forma como fizeram sonhar e abriram o jogo ao mundo. E só por isso merecem que eu os coloque entre as minhas equipas de sonho.

 

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