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Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

O clima tóxico do debate futebolístico

Ao ler os comentários desportivos, entre jornais e blogues, descubro que é dominado por um facciosismo clubístico ou sectário (quando intra-clube) que de tão barulhento não deixa espaço para quase nada mais. É um facciosismo que se repete mas bastante amplificado quando passa para as televisões, onde não existem debates, apenas gritos de claques engravatadas. Se eu passar os olhos pelo meu feed do Facebook descubro as mesmas tendências, com posts dedicados a alfinetadas (quando escritos por pessoas educadas), ataques declarados (quando o autor de vê como assertivo) ou mesmo insultos grosseiros.

 

Não é nada de novo. Quem se sentasse à mesa de um café há cerca de 20 anos já o poderia sentir. As conversas eram fortemente tingidas pelas cores clubísticas e envolviam habitualmente um certo nível de oposição aos outros clubes. Isto era normal e saudável, sendo que raramente as discussões atingiam níveis violentos, mesmo que apenas oralmente. Ainda assim os jornais e televsões mantinham posições mais ponderadas, mesmo quando orientados para um clube.

 

 

Desde que as televisões começaram com os "debates" entre adeptos dos 3 grandes (normalmente uma figura mais ou menos pública que deverá ter pontapeado pela última vez um bola numa peladinha algures em 1972) que o tom mudou. O que vende é o conflito, real ou encenado, entre estas figuras. Para o alimentar os meios de comunicação aumentam a estridência das "notícias", investigam qualquer potencial ofensa de um clube (ou alguém ligado ao mesmo, ainda que apenas tenuamente) a outro ao mais infímo pormenor e esmiuçam toda e qualquer decisão de arbitragem que possa ter sobre si a mais pequena dúvida.

 

Isto é depois amplificado pela actual forma de comunicar, onde a atenção é curta e o importante é o título, não o conteúdo. E no caso de faltar conteúdo, inventa-se. Já não bastam as declarações de futebolistas, trienadores ou dirigentes, tem que se adicionar os dos comentadores, que passam de observadores a actores. Adicionam-se os "casos" de arbitragem, mesmo quando envolvem uma (potencial) falta a meio campo que não tem influência em nada no jogo. Acrescenta-se a isto ainda o "campeonato" das transferências, onde se segue o destino dos jogadores que um dia andaram pelo clube e agora estarão a ter um bom período, assim "demonstrando" o acerto da sua escolha pelo clube (sempre em oposição aos adversários). O caso mais ridículo deste último fenómeno é quando vejo Benfica e Sporting a discutirem quem tem mais sucesso: se Cancelo ou Carriço o que, tratando-se de dois jogadores saídos há 3 e 4 anos respectivamente dos seus clubes, se torna ridículo.

 

Estive a dar uma espreitadela por blogues de clubes (do Benfica, FC Porto e Sporting) e cheguei à conclusão que em muitos casos pelo menos metade dos posts têm pelo menos referências a casos de arbitragem ou a ataques aos outros clubes. Note-se que não reparei se tinham ou não razão de ser, mas apenas se existiam e o peso que tinham no respectivo post. Isto notava-se mais nos blogues do Sporting que do Benfica ou do FC Porto. Uma vez que a avaliação rápida que fiz foi apenas aos últimos 4-5 meses, isto não é de estranhar. Os adeptos de clubes em melhor posição têm mais tendência para se mostrar como "moralmente superiores" e ignorarem potenciais ataques. Os sportinguistas, com o clube neste momento numa posição pior que há um ano, terão mais tendência para o ataque e a queixa. Se a situação se invertesse seria normal vermos tendências opostas (como vimos no passado).

 

O resultado é um ambiente tóxico. Não é possível avaliar um jogo ou um campeonato pelos méritos dos clubes. Têm que se procurar razões externas para a má prestação do próprio clube e para a melhor prestação dos outros. Quando o próprio clube tem bons desempenhos, isso é esfregado no nariz dos adversários, para fazer realçar a superioridade. Até episódios como vendas de jogadores são levados à discussão, como se fosse possível decidir de imediato se a transferência de João Mário teria sido melhor ou pior negócio que a de Renato Sanches.

 

E o pior é que estas discussões são feitas na mais pura das ignorâncias. Leio os comentários a decisões dos árbitros por pessoas que provavelmente nem sabem que existe um documento chamado "As Leis do Jogo" ou que não entendem que nem sequer são absolutas, que a sua interpretação muda de ano para ano e até de acordo com as orientações dos organismos organizadores das provas (por exemplo, na Liga Inglesa os árbitros têm indicação para ser mais permissivos com cargas sobre o guarda-redes na pequena área). Outra ignorância é sobre a forma como funcionam transferências, com os comentários a demonstrarem que não há entendimento entre valor da transferência e custo da mesma.

 

Estes são exemplos. Poucos. Não os refiro porque seria atacado indevidamente. Fica apenas o meu comentário. Do meu lado, não reclamo isenção ou imparcialidade, mas tento ser honesto e concentrar-me no essencial. Talvez por isso (e pela falta de talento) nunca irei participar num debate futebolístico nos media portugueses.

 

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