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Comentador de Bancada

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O declínio do Barcelona

Não era suposto ser assim. No ano da morte de Johan Cruijff, num momento em que o Barcelona destruía o Arsenal e parecia ser intocável na Europa, numa altura em que estava com 7 pontos de vantagem sobre o segundo classificado na Liga (Atlético de Madrid), num período em que o trio atacante continuava a fazer sonhar todos os apreciadores de bom futebol e numa altura em que não só parecia estar no bom caminho para ser a primeira equipa  areter o título na era Liga dos Campeões como a primeira equipa a ser capaz de repetir o "triplete" em anos consecutivos....

 

Quando tudo parecia estar a correr sobre rodas... 4 derrotas, um empate, eliminação na Liga dos Campeões e vantagem na Liga apenas no duelo individual com o Atlético.

 

Não, não era suposto ser assim. Este era suposto ser o ano em que o Barcelona demonstrava de vez que o seu sucesso recente se devia a mais que Guardiola e derivava de uma filosofia verticalizada em todo o clube. Era o ano em que a filosofia do passe, da pressão e procura de espaços finalmente atingiria o seu expoente máximo na forma como maximizava o potencial de um trio atacante que se complementa como poucos na história. Não era suposto a narrativa continuar assim.

 

 

O Barcelona não está em mau estado. Continua a depender de si mesmo para ser campeão e, se não tem já margem de erro, tampouco a têm o Atlético e o Real. É perfeitamente possível e provável que o Barcelona seja campeão. Há também uma final da Taça do Rei a ser jogada contra um Sevilha que é difícil mas está ao alcance até de um Barcelona a carburar em menos cilindros. Campeonato e Taça constitui uma época muito bem sucedida até pelos parâmetros incríveis de um Barcelona.

 

Qual é então o problema?

 

O problema é que o Barcelona começa a ter dificuldades com a narrativa que criou para si mesmo. Uma narrativa baseada na fé na formação, numa filosofia de "a forma correcta de jogar", num conceito de Més que un club. Era uma narrativa bonita, mas que tinha um problema, como todas as narrativas criadas em torno de um príodo bem sucedido: era uma fantasia insustentável.

 

A verdade é que o Barcelona (quase) imparável que Guardiola criou e que estava a ser continuado por Luís Enrique se baseava numa geração de jogadores que era quase única. É bonito falar na importância da formação do Barcelona mas juntar jogadores da qualidade de Piqué, Valdés, Busquets, Xavi, Iniesta, Messi, Pedro e adicionar Fábregas ou Alba (que também passaram pela formação culé) é algo que não acontece frequentemente. A isto adicionou-se um recrutamento com sucessos e fracassos, mas onde os sucessos o foram de forma retumbante porque complementaram perfeitamente as forças já existentes no clube (a experiência e concentração de Mascherano, a diemnsão extra de Daniel Alves, a classe e capacidade física de Rakitic, a experiência e liderança suave de Abidal, a fome de Suárez, os golos de Villa, a fantasia de Neymar, a determinação e versatilidade de Alexis Sánchez...). Houve fracassos incríveis (gastaram-se rios de dinheiro sem recrutar um único central de qualidade) mas estes foram mascarados pelos sucessos ou pelas tragédias (como com Tito Villanova).

 

O Barcelona actual está ancorado no estilo anterior, mas com umadimensão diferente. Sem Xavi não tem quem controle o jogo no meio campo e necessita que o centro de gravidade do seu jogo se transfira para o ataque. A desvantagem desta abordagem é que está profundamente dependente da inspiração e forma do trio atacante. O estilo do Barcelona proporciona a plataforma para a criação de Messi, Neymar e Suárez, mas não basta como antes bastava quando a qualidade de Messi era simplesmente o pináculo do estilo (poderia argumentar-se que a Espanha 2010-12 era um Barcelona menos Messi e continuava a ser altamente eficaz).

 

Desde a última ronda de jogos de qualificação sul-americana que o trio "MSN" tem jogado muito abaixo daquilo que sabe e pode. Há especialmente a sensação que os trêns jogadores têm tido momentos altos mas de forma muito interrupta e não coincidente entre si. Há quem argumente que é uma questão física ou de carga psicológica. A verdade é que a carga de jogos parece estar a atingir os três jogadores física e/ou animicamente. E numa equipa que depende da sua qualidade, as consequências podem ser desastrosas.

 

Este é no entanto um sintoma recente de um problema mais profundo: o Barcelona acreditou na sua própria narrativa. Depois de ter bloqueado grande parte do seu orçamento para manter Messi, recrutar Suárez e Neymar, o Barcelona acreditou que poderia oferecer alternativas a partir da sua própria formação. Infelizmente o clube não consegue estabelecer um jogador de forma consistente na primeira equipa desde os tempos de Busquets e Pedro e mesmo Sergi Roberto só tem conseguido jogos a partir do banco ou como lateral-direito de recurso. A verdade é que jogadores da qualidade dos da primeira equipa não surgem todos os anos, mesmo numa formação da qualidade da do Barcelona e é necessário recrutar fora do clube para garantir uma renovação sustentável.

 

Não tendo aprendido esta lição e tendo colocado todas as fichas no trio "MSN", o Barcelona encontra-se agora com dificuldades financeiras que estão a levar a direcção a considerar o naming do Camp Nou, numa medida que estaria em directa contradição contra os valores que levaram o clube no passado a pagar para colocar o logotipo da UNICEF nas suas camisolas. Esta seria no entanto uma medida que aliviaria as finanças do clube e permitiria olhar para o futuro de forma mais calma e permitir um planeamento mais estruturado.

 

Outra solução actualmente a ser considerada, se acreditamos nas "fontes" de dentro do clube que os jornalistas vão citando, é a venda de Messi ou Neymar. Não só para financiar uma reestruturação do plantel como também para libertar capacidade salarial para contratar estrelas de dimensão algo menor mas menos onerosas para o orçamento.

 

A verdade é simples: a formação de La Masía não vai ser capaz de fornecer substitutos de forma sustentável para compensar o declínio e saída de Xavi, Iniesta, Busquets, Piqué, etc, sem que o clube opte por soluções iguais às dos outros clubes. Isto poderia danificar a imagem Més que un club hagiograficamente construída nos últimos anos, mas seria mais fiel à sua História real, onde esse valor se deve à sua função de aglomerador social na Catalunha, mais que a um estilo de jogo.

 

Messi, Neymar e Suárez poderão desafiar esta imagem este ano, no próximo ou no outro, mas o declínio do modelo actual está aí. Quanto mais tarde chegar, maior será o seu estrondo.

 

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