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Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

O visionário nos ombros de gigantes

No princípio os ingleses criaram o futebol.

O futebol, no entanto, era sem forma e vazio.

Disseram os escoceses: «Haja o passe!»

E viu o mundo que o passe era bom e correu a adoptá-lo.

(...)

E a 25 de Abril de 1947 nasceu o profeta Johan Cruiff e o passe foi elevado à categoria de evangelho.

 

 Este poderia ser o início de uma Bíblia do futebol. Claro que nada é assim tão simples e é também verdade que o passe como ferramenta essencial no futebol nasceu ainda no longínquo ano de 1872 quando os escoceses o inventaram ao verem que de nada valia o jogo baseado na corrida e drible contra adversários ingleses em média 6 kg mais pesados por jogador.

 

Se perguntarmos aos holandeses e culés, também acabaremos com a resposta que Johan Cruijff e Rinus Michels inventaram um futebol baseado no passe no final da década de 60 e levaram essa invenção ao mundo em 1974. Depois disso, o profeta exilou-se na Catalunha e o passe tornou-se religião com o messia Guardiola e o Papa Xavi.

 

Não podemos de maneira nenhuma ignorar que o jogo baseado na trindade passe-pressão-espaço chegou à sua expressão máxima com Guardiola em Barcelona, conduzido por Xavi e maximizado por Messi. Aquilo que não podemos é atribuir o mérito a todos esses aspectos a Cruijff. Para compreender no entanto como o génio de Cruijff moldou o futebol moderno, é necessário compreender que vários destes conceitos existiam já - e há muito tempo.

 

 

As raízes do tiki-taka

O tiki-taka tal como é entendido actualmente não passa do futebol baseado em passes curtos e frequentes, idealmente ao primeiro ou segundo toque. Claro que há muito mais do que isso no conceito, caso contrário muitas equipas teriam sido bem sucedidas no passado, mas é assim que o conceito é percebido.

 

Procurar as origens do futebol de passe curto é tão inútil como procurar as origens do jogo em si: perdem-se na memória dos tempos e não seria difícil encontrar alguma referência de Heródoto ao conceito. Há no entanto alguns nomes que se destacam: Jimmy Hogan e Hugo Meisl, responsáveis pela Wunderteam austríaca; Jack Reynolds, que deixou as sementes no Ajax pré-Michels; O Dínamo de Moscovo de Boris Arkadiev e a sua "desordem organizada"; a Aranycsapat húngara. Todas estas equipas jogaram de uma forma ou outra um estilo de jogo baseado na posse de bola, passe curto e frequente troca de bola. Se a Espanha e o Barcelona modernos não nasceram do nada e beberam da fonte holandesa, os holandeses souberam também aprender as lições dos outros.

 

Passe e movimento. Estas características nasceram há muito tempo no futebol e estão intimamente ligadas. Como qualquer míudo a jogar na rua sabe ao ouvir o seu vigésimo «desmarca-te!» após passar a bola, um passe tem de ser seguido por uma movimentação, de forma a criar espaço para o passe seguinte. Estes são dois dos pilares do Futebol Total holandês dos anos 70 e do futebol espanhol moderno.

 

O outro é a pressão alta. Aqui as origens serão mais recentes e terão nascido no génio de Viktor Maslov na década de 60 em Kiev. Maslov não foi o primeiro treinador a implementar o conceito de pressão, mas terá sido o primeiro a organizá-la baseada em zonas, com os jogadores a subirem para pressionar os adversários sabendo que os colegas de equipa cobririam a zona que aqueles abandonariam.

 

Atribuir-lhe a influência decisiva para a pressão que os holandeses implementaram seria no entanto um exagero: os tempos eram outros, a comunicação entre os dois lados da cortina de ferro era limitada e as inovações tácticas não eram transmitidas à velocidade de hoje. Não é difícil imaginar que Michels e o Ajax tenham chegado ao mesmo conceito de forma independente, mas é igualmente possível que algumas das bases tenham sido absorvidas pelo génio holandês.

 

Já na década 80 surgiu o AC Milan de Sacchi, onde o conceito de pressão alta foi associada a uma formação compacta, onde os defesas tinham que jogar não mais que 20 metros atrás dos atacantes - uma opção possibilitada pela dupla vantagem de uma lei do fora de jogo mais restrita que hoje e da presença de um dos melhores quartetos defensivos de todos os tempos. As opções de Sacchi dependiam imenso das acções dos seus três holandeses, treinados na escola holandesa a que chamamos Futebol Total, sendo que van Basten e Rijkaard tinham inclusive jogado com Cruijff. Esta evolução tornou-se fundamental para que as lições de Cruijff a Guardiola nos anos 90 em Barcelona pudessem criar raízes e levar ao futebol que vimos já no século XXI.

 

Nos ombros de gigantes

«Se vejo mais longe é porque estou sobre os ombors de gigantes», Isaac Newton.

 

Se tudo tinha sido inventado, que fizeram então Cruijff e Michels? Muito simplesmente juntaram todos os ingredientes e fizeram-nos funcionar de uma forma que nunca tinha sido possível e só voltou a ser vista com o Barcelona de Guardiola. Michels pegou nas bases de Reynolds - o estilo de jogo uniformizado ao longo de todos os escalões, uso de alas ou treino intenso da técnica; na pressão alta de Maslov, no jogo de passe de Arkadiev, Hogan, Meisl e tantos outros, e criou um futebol ultra-moderno nunca antes visto.

 

Falar em revolução não faz sentido porque nada era verdadeiramente revolucionário, a não ser a adopção dos vários conceitos numa abordagem holística do futebol. Ainda assim não falaríamos hoje de Totaalvoetbal se não existisse uma geração única de futebolistas com um génio ao leme: Johan Cruijff.

 

O génio de Cruijff não consistiu em ser um grande jogador, embora isso obviamente tenha sido essencial. Qualquer equipa que implemente este tipo de jogo necessita sempre de um "grande desequilibrador", de um génio individual que mude tudo num momento. O Barcelona de Guardiola tinha Messi, o AC Milan de Sacchi tinha van Basten, o grande Liverpool dos anos 70-80 tinha Dalglish, os húngaros dos anos 50 tinham Puskás, os austríacos em 1936 tinham Sindelaar, etc. Pode-se mesmo argumentar que a falta de reconhecimento das equipas soviéticas dos anos 60 a 80 (de Maslov a Lobanovski) se deverá à insistência destes na predominância do colectivo em prejuízo da expressão individual.

 

O Ajax tinha Cruijff, o jogador colectivo capaz do desquilíbrio individual. O avançado que organizava jogo a partir da defesa. O ponta de lança que dava instruções ao meio campo. O desbocado que colidia frequentemente com colegas de equipa, treinadores e dirigentes. Tudo isto ajudou o Ajax a fazer-se grande, mesmo depois da partida de Michels, e tudo isto ajudou o Barcelona a assumir a sua posição de gigante que tem hoje.

 

Cruijff foi um enorme jogador. Provavelmente o melhor de todos os tempos nascido na Europa. Era-o porque tinha uma técnica incrível, era rápido, ágil e tinha enorme resistência. Mas era-o também porque o seu cérebro parecia operar a uma velocidade diferente dos dos outros. Ver a maioria dos seus clips de highlights no YouTube é uma demonstração de como ele pensava o jogo de forma diferente, via a jogada antes de acontecer. Não queria ficar preso a um estilo ou uma opção de jogo e por isso imaginava sempre novas alternativas.

 

A influência

Esta forma de ser, associada à sua arrogância e ao seu carisma permitiram criar um novo estilo de futebol numa altura em que o mundo estava preparado para ele. No início dos anos 90 chegou a Liga dos Campeões, a meado da década começou a chegar a revolução da internet. O meio estava fértil e o comunicador estava pronto. Não seria difícil imaginar que o impacto de Cruijff nos anos 80 seria menor, mas nos anos 90 tivemos o homem certo no momento ideal.

 

Ao mesmo tempo que Cruijff transmitia a sua filosofia, um dos seus inimigos fidagais - Louis van Gaal apesar de alma-gémea no que diz respeito a pensar o futebol - reinventava o Ajax como potência europeia e reintroduzia a escola holandesa aos currículos futebolísticos europeus. Passados apenas uns anos iria pregar para a mesma freguesia de Cruijff e teria como alunos alguns nomes que hoje influenciam também o futebol moderno. Aliás, se a influência dos gigantes do passado no pensamento de Cruijff é algo difusa e mais acidental (excepção feita a Michels, naturalmente), a linha de Cruijff ao futebol moderno consegue ser mais directa com os nomes de Sacchi, van Gaal (mesmo não o admitindo), Guardiola, de Boer, Luis Enrique ou outros a afirmarem sem pudor a influência que o futebol holandês (directamente da década de 70 ou por interposta pessoa) teve nas suas abordagens.ao futebol.

 

Nos seus anos finais, apesar de já em praticamente nada contribuir para a evolução do futebol, Cruijff continuava a ser o pregador incansável, o profeta que punia acidamente quem se desviava dos seus mandamentos e que continuava a acenar a bandeira da "forma correcta de jogar futebol". Com o seu desaparecimento já não perdemos o inovador, mas a figura tutelar que presidia à ~filosofia, a sombra que pairava sobre o futebol moderno, abandona-nos para sempre.

 

A morte de Cruijff retira-nos o primeiro dos "melhor de todos os tempos" (as minhas desculpas a Eusébio, mas vejo-o um degrau abaixo) mas, mais que tudo, retira-nos o profeta original. Era irritante, arrogante, irritável, barulhento, mas era também um génio e um visionário que via aquilo que mais ninguém conseguia.

 

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