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Comentador de Bancada

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Pré-Visões do Euro 2016 - Inglaterra

Mais uma competição e mais uma vez o famoso ciclo inglês: criar expectativas, ficar lentamente desiludido com a prestação, reconhecer que a qualidade não é suficiente, ficar deprimido com a selecção. Basta ler os jornais ingleses para perceber que a Inglaterra anda há décadas presa a este ciclo. Vivem da glória do Mundial conquistado em casa em 1966 e com a ilusão que a próxima vitória está ao virar da esquina.

 

Isto esteve mais perto de ser realidade durante a geração de Beckham, Gerrard e outros. Foram derrotados apenas com grande esforço por brasileiros e portugueses em 2002 e 2004, respectivamente, e poderiam ter chegado longe. Hoje, com esses jogadores quase todos retirados ou afastados (apenas Rooney ainda está na selecção, tendo sido o menino prodígio em 2004), as expectativas são mais baixas, mas sobem sempre que um ou mais jovens excitantes começam a desabrochar.

 

Em termos de qualidade pura, a Inglaterra nunca está assim tão mal quanto se possa pensar. Na selecção actual tem um bom conjunto de jogadores. Carrick poderia ter jogado por um Barcelona; Rooney não terá chegado aos níveis que os compatriotas esperavam mas é um jogador excelente; Hart é uma guarda-redes com erros clamorosos ocasionais mas também na categoria imediatamente inferior às de Neuer, de Gea ou Courtois; Sterling, Barkley, Kane, Smalling, Stones, Wilshere (quando não lesionado) e Sturridge são simultâneamente altamente promissores e já temíveis. É uma equipa que, vista jogador a jogador, deveria aspirar pelo menos às meias-finais.

 

O problema é que os ingleses acabam sempre por falhar nas fases finais. As razões não são sempre claras, mas há algumas que saltam à vista. Antes de mais a falta de uma pausa de Inverno (quando jogam de forma ainda mais frequente) que não permite aos jogadores descansarem. Isto torna-se ainda mais premente quanto a Inglaterra gosta de jogar em velocidade. Ainda pior fica o cenário quando os torneios têm lugar no Verão, o que torna o jogo rápido e intenso da Inglaterra mais difícil, especialmente considerando que os ingleses gostam pouco de calor quando não numa praia de Tenerife.

 

O estilo de jogo inglês também é excessivamente simples. Não é coincidência que os jogadores europeus de ligas mais tecnicistas tenham sucesso na Premier League (após um período de adaptação ao aspecto mais físico) mas os ingleses tenham dificuldades no continente. Há muita vocação para o ataque rápido, desenfreado e pouco estruturado e para o jogo "mais com o coração que com a cabeça". Isto é motivado e impulsionado pelos adeptos, que querem um jogo emotivo e menosprezam discussões tácticas. É também o resultado de uma formação muito focada na parte física e pouco nas partes técnica e táctica. Tudo junto forma um estereótipo de jogador forte, rápido, com muito coração mas que não compreende o conceito de "pausa" no meio do jogo: parar e ver.

 

Outros aspectos contribuem: há pouca familiarização dos jogadores ingleses com outros estilos (as equipas na Liga dos Campeões têm poucos ingleses e as da Liga Europa consideram a competição exclusivamente como um fardo senão mesmo um castigo); a pressão exercida é excessiva (Peter Schmeichel foi para o Sporting perto do final da carreira porque queria um ambiente mais calmo); há sempre um circo a rodear a equipa (com WAGs, agentes, televisões, etc); a preparação nem sempre é a ideal; etc.

 

Ignorando este último aspecto, debrucemo-nos sobre aspectos tácticos e de jogadores. Antes de mais o maior problema de Roy Hodgson: não existe um onze ideal na sua cabeça. Existem variações do mesmo, mas ainda há muitas experiências a decorrer, especialmente à medida que jogadores jovens vão emergindo. Há jogadores que serão certos, senão no onze, pelo menos lá perto: Hart, Smalling, Jones, Stones, Clyne, Carrick, Wilshere, Henderson, Sterling, Sturridge, Barkley, Rooney. O problema é quais deles estarão aptos (Wilshere por exemplo está mais tempo lesionado que saudável) e como os integrar. Rooney é o principal problema, uma vez que há a sensação que deve jogar mas nas suas possíveis posições há jogadores mais capazes (Sturridge a ponta de lança, Barkley a "10", Sterling ou Oxlade-Chamberlein nas alas, Henderson no meio campo). Isto leva a um certo desequilíbrio táctico que torna difícil criar uma equipa.

 

Além disso, a relativa juventude (e impetuosidade) de muitos dos promissores jogadores que vão sendo integrados (entre eles Eric Dier, formado no Sporting), torna difícil a adopção de um estilo de jogo mais pausado, o qual é habitualmente mais adequado a estas competições. Também limita as opções tácticas, dada a inexperiência destes jogadores não só em relação aos seus colegas mais experientes como em relação aos outros jogadores jovens de outras partes do continente.

 

Num bom dia a Inglaterra será impossível de parar. Se nesse dia não houver lesionados, o sol não brilhar, a temperatura for baixa e a equipa adversária se atemorizar com a impetuosidade, a Inglaterra pode vencer qualquer um. Num torneio destes esse tipo de dia só costuma aparecer uma vez. A Inglaterra terá qualidade suficiente para sair da fase de grupos, mas provavelmente não mais que isso. E a espera e o ciclo repetitivo conitnuarão.

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