Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

Previsão da final: Juventus - Real Madrid

A final de amanhã da Liga dos Campeões promete ser das mais interessantes dos último anos. Será preciso recuar a 2008/09 para encontrar uma final onde as duas equipas mais fortes da competição se terão encontrado (Barcelona, que venceu 2-0 o Manchester United) como neste ano.

 

O Real Madrid vem de um ano onde Zidane surpreendeu (quase) toda a gente como treinador. Se havia muitos que duvidavam do seu sucesso na Liga dos Campeões do ano passado, este ano conseguiu vencer a liga e regressar à final, sendo a primeira equipa desde o Manchester United em 2008/09 a ter a possibilidade de defender um título e assim quebrar a maldição da competição (desde que terminou o formato da antiga Taça dos Campeões com a época de 1991/92) de nenhuma equipa conseguir reter o título (a última equipa que o conseguiu foi o AC Milan em 1988-90). Aquilo que Zidane trouxe ao Real Madrid mede-se menos em termos de inovações ou brilhantismos tácticos e mais na forma como gere a equipa (mais abaixo). Nada de espectacular na forma, mas silenciosamente eficiente levando a resultados fantásticos (um pouco como o jogador Zidane).

 

A Juventus conseguiu incrivelmente evoluir para lá da equipa que tinha perdido a final com o Barcelona há dois anos, mantendo apenas Buffon e Bonnucci nos dois 11 iniciais (entre o de então e o mais provável de amanhã). Chiellini, Barzagli, Lichtsteiner, Marchisio e Sturaro ainda fazem parte do plantel da Juventus, mas ou não iniciaram o jogo em 2015 ou não o iniciarão amanhã. No entanto, e apesar da perda de Prilo, Vidal, Pogba, Morata, Tevez ou Evra, a Juventus está indubitavelmente mais forte, ainda mais equilibrada e flexível que há dois anos. Este ano conseguiu sofrer apenas 3 golos em toda a competição e apenas um na fase de grupos, contra o Mónaco na segunda mão de uma eliminatória que estava já quase decidida. É uma equipa que parece estar confirtável a defender e a atacar e tem múltiplas formas de atacar colectivamente os seus oponentes e oferece um equilíbrio único.

 

 

É quase irresistível definir o jogo como o ataque do Real Madrid contra a defesa da Juventus. As duas equipas têm contudo muito mais ao seu dispôr que as suas faces mais visíveis.

 

Real Madrid

Zidane teve essencialmente 3 méritos ao longo da época:

a) o seu carisma e passado como jogador equivalente a qualquer outro do planetel deu-lhe autoridade e respeito para conseguir que a sua principal estrela, Cristiano Ronaldo, descansasse mais a frescura que isto lhe conferiu viu-se nos 8 golos marcados nas duas últimas eliminatórias, contra Bayern de Munique e Atlético de Madrid.

b) o estatuto que possui no clube, inclusive perante Florentino Pérez, permitiu ter o capital suficiente para não ter de jogar sempre com as estrelas e, fundamentalnos jogos mais importantes, poder incluir Casemiro, que deu equilíbrio ao meio campo e foi evoluindo ao longo da época.

c) voltando ao tema do respeito que tem no plantel, conseguiu que os jogadores suplentes tivessem sempre desempenhos ao mais alto nível quando chamados, o que leva a que Isco ou Asensio possam ser incluídos na equipa em desfavor de Bale, mesmo que este esteja disponível. Tal deu a entender ao plantel que existia uma forma de meritocracia e que valia a pena lutar por lugares.

 

Tacticamente, Zidane faz alinhar a equipa em 4-3-3 (se tiver Bale, Asensio ou Lucas Perez) ou 4-4-2 (com Isco ou também Asensio). Em qualquer dos casos a largura é dada habitualmente por Carvajal e Marcelo, dois laterais muito ofensivos, que têm como função compensar o posicionamento muito central dos jogadores do meio-campo. No caso em que Perez, Bale ou Asensio alinham do lado direito, Carvajal posiciona-se um pouco mais abaixo. Pronto para ir à linha mas sendo mais provável que ofereça uma opção de passe ao ala e cruze de posições mais atrasadas. Já à esquerda Marcelo sobe sempre muito, sendo nos movimentos atacantes mais um médio que um lateral ofensivo. Isto não é resultado apenas do seu hábito ofensivo mas também do que oferece, sendo tecnicamente mais parecido com um médio que com um lateral clássico. Aliás, nos últimos meses Marcelo tem sido a principal arma de construção ofensiva, não em subidas simples pelo seu flanco mas na forma como corta para o centro do terreno e oferece a opção de mais um jogador criativo.

 

No meio campo, Casemiro é o jogdor que fica mais recuado, tendo ofensivamente a função de manter o equilíbrio no meio campo e oferecer mais uma linha de passe. Casemiro tem habitualmente altas percentagens de passes acertados, em parte porque os seus passes são muito simples. Isso pode fazê-lo parecer limitado, mas a verdade é que a sua função é absolutamente imprescindível, dado que permite a Kroos e Modrić tempo para respirar e reposicionarem-se quando expostos a pressão intensa. Kroos e Modrić são dois jogadores que, oferecendo características diferentes, acabam por oferecer a mesma função. Modrić é mais móvel e capaz de se mover em espaços exíguos. Kroos tem uma variedade de passe incrível e encontra frequentemente espaços com passes de 20 ou 30 metros. Mais que isso, tanto o croata como o alemão são duas estrelas que se sacrificam pela equipa, correndo, fazendo intercepções e tackles para conseguir de novo a posse da bola.

 

No ataque a função dos centrais (provavelmente Sérgio Ramos e Varane) não passa simplesmente por subir em bolas paradas. Tanto Varane como Ramos (mais este) são capazes de subir com a bola controlada e contornar a pressão aos médios centrais. São igualmente capazes de fazer bons passes longos, libertando Ronaldo, Benzema e companhia, especialmente para correr para o espaço aberto em frente.

 

No ataque o Real Madrid continua a funcionar em função de Ronaldo. Hoje em dia Ronaldo é essencialmente um ponta de lança, um predador de área (ou suas imediações), mas não típico. Embora continue a terminar jogadas perto do golo, a sua posição é mais recuada e continua a usar a sua incrível aceleração e poder físico (hoje de forma mais racionada) para chegar aos passes dos colegas antes da defesa. Para que ele tenha essas possibilidades muito contribui o trabalho de Benzema, que luta contra os centrais de forma mais "tradicional" e flecte muito para os flancos, de forma a puxar os centrais e criar espaços para Ronaldo.

 

Fundamental nos últimos jogos tem sido o trabalho de Isco. Habitualmente preterido em favor de Bale, hoje em dia pode dizer que está no onze inicial por mérito próprio e que lá ficaria mesmo com Bale a 100% (pelo menos tal não seria de espantar). Isco torna o 4-3-3 do Real Madrid em algo que se parece mais com um 4-3-1-2, onde Isco é o jogador mais livre (a seguir a Ronaldo). Aquilo que Isco oferece é algo de distinto de todo o resto da equipa. Sendo um jogador com um estilo tipicamente de rua, Isco mexe-se sem problemas em espaços curtos e cria situações de perigo do nada. Embora tenha adicionado mais golos e assistências ao seu reportório, Isco é o jogador que melhor cria oportunidades ao se libertar da pressão de dois ou três adversários e de repente criar do nada vantagens numéricas. No jogo de hoje, será provavelmente o jogador mais importante do Real Madrid.

 

Juventus

Embora uma defesa com Barzagli, Bonnuci, Chiellini e Buffon seja imponente, a verdade é que toda a equipa está perfeitamente equilibrada. No papel isto não seria de esperar, especialmente quando Allegri alinha com o seu sistema de 5 estrelas (Pjanić, Cuadrado, Dybala, Higuaín e Mandžukić). Com apenas Khedira para oferecer equilíbrio, não se esperaria que este sistema alinhasse, mas a verdade é que com o trabalho que Cuadrado, Pjanić, Dybala e Mandžukić oferecem, apenas Higuaín fica livre para tarefas quase exclusivamente ofensivas. Mandžukić é especialmente o jogador decisivo, um ponta de lança a alinhar na ala esquerda e por vezes com funções de lateral ofensivo. O croata tem uma tal capacidade de trabalho que compensa a falta de velocidade e equilibra a equipa. Tem ainda a vantagem de criar desequilíbrios contra o lateral direito, oferecendo um alvo para cruzamentos largos vindos da direita.

 

A grande dúvida para o jogo desta noite é se Allegri escolhe jogar com uma defesa a 4 ou a 3. Se a 4, Barzagli começará no banco e Cuadrado começará o jogo, com um desenho táctico de 4-2-3-1. Se a 3, será Cuadrado que ficará no banco e o desenho será mais difícil de definir, mas talvez possa ser caracterizado como um 3-4-2-1, com Dani Alves e Alex Sandro mais vistos como médios e Dybala a fugir para a direita. Este segundo caso será o mais provável, visto que é também provável que Isco alinhe de início. Neste caso a Juventus teria 3 jogadores na defesa para 2 avançados, laterais a enfrentar laterais e aceitaria inferioridade numérica no meio campo para poder criar desequilíbrios nos flancos.

 

Aqui muito dependerá da capacidade de Pjanić em encontrar Dybala ou Mandžukić no ataque e da capacidade destes dois para ajudar o meio campo. É esta a vantagem da Juventus, que é capaz de ter uma flexibilidade táctica muito mais ausente do jogo do Real Madrid. Alex Sandro e Dani Alves são jogadores com enorme capacidade de defender e em segundos estar já no ataque. Dani Alves oferece ainda algo de difícil de definir: uma  enorme experiência de vencer títulos. Isso mesmo viu-se na eliminatória contra o Mónaco, quando Alves contribuiu com 3 assistências e 1 golo para os 4 golos da Juventus. Alex Sandro não é tão decisivo, mas é igualmente um lateral muito moderno, sendo um misto de lateral, médio exterior e médio centro e ainda de médio ala.

 

Dybala é o jogador mais imprevisível da equipa e igualmente o mais talentoso. Tem uma enorem capacidade técnica e é extremamente criativo, mas alia isso a uma enorme eficácia, com os seus movimentos sempre com objectivos bem definidos e raramente tendo toques supérfluos na bola. Os golos que marcou contra o Barcelona nos quartos de final exemplificaram isso na perfeição, com movimentos excelentes, grande sentido de oportunidade e economia de acções. É no entanto um jogador muito moderno no sentido em que, mesmo podendo ser considerado a estrela da equipa, trabalha imenso defensivamente e ajuda bastante a sua defesa. Isso, mais uma vez, oferece equilíbrio à equipa.

 

Higuaín é de certa forma a grande incógnita. Tornou-se o 4º jogador mais caro de sempre quando se transferiu do Nápoles para a Juventus e foi preencher uma vaga que a maioria não julgava existir. Contudo, com 32 golos este ano, tem vindo a justificar o preço neste mercado inflaccionado e foi decisivo nas meias finais, contrariando a noção que não rende na Liga dos Campeões. Mais que isso, a sua capacidade física e os seus movimentos tornam a tarefa dos centrais adversários extremamente difícil e mesmo quando não marca golos acaba por crias imensos espaços para os seus colegas de equipa aproveitarem.

 

Khedira é a chave da equipa. Traz pulmão, energia, força, disciplina e capacidade de passe curto. Traz também uma enorme capacidade de liderança e experiência de títulos. É quem liga o meio campo e aparece muitas vezes perto da área adversária para se envolver no ataque ou finalizar as jogadas. Não é fácil defini-lo, sendo simultâneamente um médio defensivo, um médio centro simples ou um jogador box-to-box, devido às suas características. Dá liberdade a Pjanić e confinça ao sector defensivo. E terá muita motivação para vencer o Real Madrid, de onde se transferiu a custo zero quando a direcção (contra os desejos dos jogadores) o deixou sair.

 

O jogo

Duas grandes incógnitas existem em termos tácticos. Do lado do Real Madrid: joga Isco ou Bale? Do lado da Juventus: 3 ou 4 defesas? Poderemos colocar outras questões: quem será  o lateral direito do Real? Haverá outras surpresas tácticas?

 

Se Isco alinhar e Allegri optar por 2 centrais, poderá ter problemas com um excesso de jogadores no centro. Se o oposto suceder, Bale jogar de início e a Juventus jogar com 3 centrais, estes poderão não ter quem marcar ou Barzagli poderá ser arrastado para a direita devido ao movimento de Ronaldo. Se Zidane decidir alinhar com um joker como Asensio de início ou colocar Iso no flanco, poderá ganhar flexibilidade táctica que lhe permita adaptar-se à defesa da Juventus.

 

Será provavelmente neste aspecto que se decidirá a final: conseguirá Zidane criar dificuldades à defesa da Juventus colocando os italianos perante escolhas desconfortáveis. Isto é tão mais importante porque é difícil imaginar a Juventus a não marcar pelo menos um golo a uma defesa comparativamente tão frágil como a do Real Madrid. Mas se o ataque madrileño conseguir ganhar os espaços que quer, então o Real vencerá.

 

Pessoalmente inclino-me para uma vitória da Juventus. É a equipa mais flexível tacticamente e com jogadores mais capazes de se aplicarem em múltiplas tarefas. É também a única das duas equipas capaz de ser defensiva, ofensiva ou contra-atacante com igual eficácia. O Real Madrid, por seu lado, tem imensas dificuldades de aguentar períodos em que é dominado. Esta diferença, mais que a de qualidade entre as estrelas ofensivas (onde o Real leva vantagem clara) irá provavelmente ser decisiva.

 

Além de tudo, este seria o troféu que Buffon mereceria para o fim da sua carreira. Gostaria de o ver, aos 39 anos, a levantar o troféu "das orelhas grandes". Algo de absolutamente merecido para um dos maiores guarda-redes de todos os tempos.

 

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D