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Comentador de Bancada

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Sem sucessores para o trono

Foi há dez anos que um jogador não chamado Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi venceu pela última vez a Bola de Ouro (na versão só da France Football ou associada à FIFA). Estávamos em 2007 e Kaká tinha acabado de guiar o AC Milan à vitória na Liga dos Campeões. Abaixo dele ficaram nesse ano Ronaldo e Messi. Depois disso, um deles venceu o troféu e apenas em 2010 o outro não ficou no segundo lugar (quando Messi venceu o troféu e Xavi e Iniesta, acabados de levar a Espanha ao título mundial, ficaram no pódio).

 

Este domínio é completamente sem precedentes e será difícil que se repita. Sem precedentes porque raramente dois jogadores estiveram tão acima dos seus contemporâneos e mrcaram o jogo de forma tão brutal. Também porque nos períodos em que houve situações semelhantes (nos anos 50 com Puskas e Di Stefano, nos anos 70 com Cruijff e Beckenbauer, por exemplo), ne o domínio era tão intenso nem havia uma exposição mediática tão extensa e tão focada nos momentos de brilhantismo destes jogadores. Efectivamente, tão importante como os seus talentos e desejo de vencer é o apouio mediático que os jogadores recebem dos seus clubes e do seu staff, cientes que estão da mina de ouro que possuem.

 

 

Mesmo assim, a superioridade destes dois jogadores é inegável. Os seus números não são só fantásticos (no sentido de pertencerem ao domínio da fantasia) como são mesmo irreais. Nunca ninguém atingiu valores semelhantes em golos (sem falar nas outras contribuições) a este nível deste lado de um ecrã de computador. Os seus clubes, Real Madrid e Barcelona, têm vindo a dominar essencialmente devido às suas contribuições.

 

Este domínio não existe apenas pelos golos que marcam, assistências que oferecem ou demais contribuições activas no campo. A sua presença condiciona os adversários, que desenham tácticas para parar as duas estrelas. Quando o Barcelona, em 2013 (salvo erro) jogou contra o PSG, a entrada de Messi, obviamente lesionado, condicionou os franceses e ajudou os catalães a avançar para as meias-finais. No Euro2016, a simples presença de Ronaldo em campo deixou os croatas receosos no jogo dos oitavos de final contra Portugal e fê-los jogar uma partida de contenção, quando no jogo anterior tinham sido dominantes contra a Espanha. O mesmo sucedeu mas ao inverso na final contra a França, quando se tornou óbvio que Deschamps não tinha qualquer plano para um Portugal sem Ronaldo.

 

As suas presenças são então decisivas pelo que fazem e influentes simplesmente por existirem. Mas têm outra vantagem: atraem enormes quantidades de patrocínios. Isto é tão mais importante para os seus clubes por o seu domínio financeiro em Espanha estar a chegar ao fim. No passado, os clubes negociavam independentemente o dinheiro proveniente da televisão. Isto levava a que os dois colossos ficassem com cerca de metade das receitas só para si. O clube seguinte era o Atlético de Madrid que receberia cerca de um terço. Agora as negociações são colectivas, o que leva a uma distribuição de dinheiro mais proporcional e limita o domínio de Real Madrid e Barcelona. Isso torna-os dependentes de outras fontes de financiamento e é aqui que entram as suas mega-estrelas.

 

Cristiano Ronaldo e Messi são jogadores que, pelo simples facto de pertencerem a um clube, lhes aumenta o prestígio e as receitas. Assinantes de subscrições televisivas na Ásia não estão necessariamente interessados no Real Madrid, estão interessados em ver Ronaldo. O mexicano que compra uma camisola do Barcelona com o número 10 não está interessado necessariamente no lema "mes que un club" mas essencialmente em mostrar o nome Messi.

 

Só que Ronaldo está em declínio (como se torna cada vez mais claro este ano) e Messi começa a demonstrar a mesma tendência (continua a ser brilhante, mas de forma muito menos contínua e mais em momentos de explosão). Potencialmente este ano um deles (provavelmente Ronaldo) já não será o Bola de Prata  e até poderá nem estar no pódio. E se isso não suceder este ano, quase certamente acontecerá no próximo. A lógica indica que será Ronaldo o primeiro a ceder (é mais de dois anos mais velho), mas a queda acontecerá com Messi muito em breve.

 

Quem lhes sucederá no topo? A resposta tem muitos nomes, não porque haja necessariamente muitos candidatos (que há), mas porque nenhum domina como aqueles dois. Griezmann, Bale, Neymar, Pogba, Hazard, de Bruyne, Dybala são potenciais sucessores no trono, mas nenhum está perto do consistente brilhantismo dos actuais reis. Outros jogadores começam a aparecer e a mostrar potencial para um dia ocuparem o trono, como Dembelé, Mbappe, Ali, Sané, Sterling ou outros, mas ainda lhes falta consistência e precisam de demonstrar que esse potencial é concretizado. Algo que salta à vista é o facto de estes jogadores serem essencialmente individualistas, jogadores que marcam frequentemente golos e são pontas de lança ou, sinal dos tempos, alas que cortam para o centro ou avançados interiores. Nestas perspectivas raramente se fala em jogadores mais orientados para a equipa, como Verratti, Kimich, Kroos ou outros semelhantes. O individualismo está acima de tudo, especialmente pelo marketing que possibilita.

 

E é este o grande calcanhar de Aquiles de Real Madrid e Barcelona. Sem Ronaldo e Messi (ou com eles mas em declínio), os dois gigantes terão muitas dificuldades para atrair as somas que conseguem actualmente. Sem poderem comprar um sucessor (não existe), terão de competir em pé de igualdade com os outros clubes e acabarão, por força do menor poderio económico de Espanha, a perder terreno para outros clubes com modelos de negócio menos dependentes de domínio das receitas televisivas e do marketing de estrelas.

 

Este post é uma consequência deste artigo de Simon Kuper. Nele, Kuper acaba a prever que Bayern de Munique e Manchester United vencerão mais Ligas dos Campeões que Real Madrid e Barcelona nos próximos 10 anos, o que se compreende pela lógica que ele explica e que eu expando acima. Há no entanto um obstáculo às vitórias de clubes ingleses: a enorme quantidade de dinheiro existente na Liga Inglesa. Esta permite que clubes de meio da tabela possam pagar somas de 25-35 milhões de libras a jogadores de qualidade média-alta (Benteke no Crystal Palace ou Yannick Bolasie no Everton, por exemplo) e oferecer salários equivalentemente elevados. Isto leva a uma competição por talento que torna a liga excessivamente competitiva no mercado e no campo e esgota os recursos dos maiores clubes (há hoje 6 equipas teoricamente capazes de disputar o título em Inglaterra e múltiplas outras que podem intrometer-se).

 

Esta competição não só deixa os clubes grandes com menos energia para as competições europeias (que são jogadas de forma distinta, mais táctica e paciente), como também os leva a gastar as suas fortunas em apostas que podem não ser as ideais e não resultar. Além disso, o dinheiro gasto em jogadores provenientes de outras equipas europeias leva estas a encontrar alternativas mais facilmente, podendo reinvestir o dinheiro com menos pressão. Os clubes ingleses ainda têm um outro aspecto que dificulta o seu sucesso europeu: o grosso das suas receitas advém de competirem de forma eficiente na Premier League, a qual é vendida como um producto específico e identificável, com características e cultura diferentes das da Liga dos Campeões. Isso leva os clubes a investir mais na comptição interna do que nas europeias.

 

Não há qualquer dúvida que Real Madrid e Barcelona perderão competitividade com o declínio das suas estrelas, mas beneficiam de outro aspecto: o equilíbrio entre domínio e competição nos seus países. Em Inglaterra, como descrito acima, as competições por vitórias são extremamente apertadas. Por oposição, em Espanha Barcelona e Real Madrid têm apenas a ocasional competição de Atlético de Madrid, Valência ou Sevilha (ou outro clube) e podem relaxar um pouco contra as equipas mais fracas. Os níveis de concentração elevados são necessários porque os rivais raramente perdem pontos, mas há mais períodos de jogos teoricamente mais fáceis. O mesmo se passa em Itália ou Alemanha, mesmo que haja duas equipas super-dominantes. Juventus e Bayern dominam os seus campeonatos, mas têm um conjunto de equipas imediatamente abaixo - Nápoles e Roma em Itália, Dortmund e Leipzig/Leverkusen/outro na Alemanha - que podem aproveitar qualquer deslize. Isso permite gerir a época ao mesmo tempo que obriga a elevados níveis de concentração.

 

Já em França há o problema do hiper-domínio do PSG (até esta época) que os deixava com pouca rotina na Europa e incapazes de jogar um jogo de contenção quando enfrentando adversários mais fortes ou de qualidade semelhante. O futuro parece então pertencer, quando olhando para equipas específicas, a Real Madrid, Barcelona, Juventus e Bayern de Munique, com ocasional intrusão de outras equipas dos mesmos países. Claro que a qualidade intrínseca dos clubes ingleses acabará por permitir uma ou outra vitória na competição, mas serão mais ocasionais e acontecerão de forma mais provável após uma estabilização na hipercompetitividade no topo da Premier League.

 

Independentemente do que venha a acontecer a nível de clubes, contudo, dificilmente voltaremos a ter uma era de talento individual como a que Ronaldo e Messi nos trouxeram. As máquinas de marketing continuarão a destacar os individualistas, mas as estatísticas irão sempre contar a história definitiva da sua qualidade. Discutir, agora que o final das suas carreiras se aproxima, qual terá sido o melhor, torna-se quase ridículo. A única coisa que podemos fazer é, como com quem viveu nos anos 50, poder dizer com orgulho: eu vi futebol na era de Ronaldo e Messi.

 

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