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Comentador de Bancada

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Um colapso histórico

Ontem o Barcelona e o Paris St. Germain fizeram história no futebol europeu. Não só o Barcelona conseguiu virar a desvantagem de 0-4 que trazia do primeiro jogo como o PSG conseguiu que o Barcelona o fizesse. Os dois aspectos estão interligados e, por muito mérito que o Barcelona tenha tido (e teve-o), o que se passou é devido igualmente aos franceses (e ao árbitro, mas a isso regresso mais abaixo).

 

Tacticamente

O Barcelona apresentou-se com a atitude que tinha que apresentar: muito atacante, decidido a fazer tudo o possível por vencer, sabendo que o jogo poderia ser decidido depois dos 90 minutos (como Luis Enrique e Luis Suarez fizeram questão de dizer antes do jogo). A táctica andava no 3-5-2, com Rafinha e Neymar a laterais-alas, Mascherano, Piqué e Umtiti na defesa, Busquets, Iniesta e Rakitić no meio campo e Messi atrás de Suarez no ataque. Na realidade o Barcelona chegou a apresentar um desenho táctico de 0-3-3-4, com Rafinha e Neymar a jogar extremamente avançados e os três centrais à frente da linha do meio campo. Era um desenho altamente arriscado, mas o Barcelona não tinha opções. Se começasse a correr mal, poderia sempre reverter para uma opção mais conservadora e aceitar a eliminação. Antes disso, porém, havia que acreditar.

 

 

O PSG apresentou-se sem ideias. No papel o estilo era claro. Um 4-3-3 com Draxler e Lucas Moura nas alas a apoiar Cavani, Verratti, Rabiot e Matuidi no meio campo e a defesa com Meunier, Thiago Silva, Marquinhos e Kurzawa. O meio campo tinha a função de lidar com os 3 do Barcelona, e a defesa trataria em 4 contra 3 do ataque do Barcelona assumindo que Messi-Suarez-Neymar jogariam como têm feito desde que criaram a fama do tridente.

 

Infelizmente isto demonstra que Unay Emery não prestou muita atenção às tácticas que Luis Enrique tem vindo a adoptar. Mesmo que pensasse que o Barcelona reverteria ao seu desenho tradicional de 4-3-3 para este jogo, seria de esperar que Luis Enrique pudesse alinhar com algo de semelhante às últimas semanas. Neste jogo preferiu arriscar ainda mais que o 3-4-3 dos últimos jogos. Nesses tinha Neymar numa ala e Rafinha noutra mas com Messi mais recuado. Neste jogo Messi jogou quase a falso 9 e o 3-4-3 asemelhou-se a um 3-3-4 no ataque. Tavez isso tenha sido devido ao recuo da linha defensiva do PSG, que permitiu a toda a equipa do Barcelona avançar.

 

Dinâmica de jogo

Ainda assim o PSG foi aguentando o início, mesmo sofrendo um golo muito cedo. Sabia que podia sofrer um par de golos sem ficar verdadeiramente ameaçado e ainda foi atacando, lembrando o peso de um golo fora. A primeira parte foi do Barcelona mas nunca houve verdadeira sensação que o jogo poderia ser virado a favor do Barcelona.

 

Na segunda parte a crença aumentou com o 3-0, mas quase foi esmagada com o 3-1. O PSG poderia ter matado o jogo com Cavani e Di María, mas não o fez. Entretanto Emery mudou o jogo com a entrada de Aurier para o lugar de Draxler. Se é verdade que Draxler não estava a ser muito eficaz, a entrada de Aurier foi um enorme erro táctico. Não só convidou o Barcelona a atacar como isentou Neymar de quaisquer obrigações defensivas ao retirar um jogador do flanco. Em vez de controlar Neymar, Emery libertou-o e o brasileiro aproveitou.

 

Colapso mental

O outro ponto em que a entrada de Aurier foi um erro foi na percepção para a equipa: a ordem do dia era defender e juntar-se na sua área, absorvendo a pressão. Ora o PSG não está habituado a isso. Mesmo não sendo tão dominante este ano em França como nos anteriores, o PSG continua a ter pouca oportunidade para treinar a sua capacidade de aguentar um cerco por longos períodos de tempo. Isso foi-se percebendo facilmente à medida que os defesas começaram a despachar bolas em vez de sair a jogar e qualquer bola para um zona que os jogadores não vissem gerava pânico imediato.

 

Apesar disso o Barcelona não aproveitou. Havia falta de crença e só mesmo Neymar ia tentando fazer algo. As entradas de Turan, Sergi Roberto e André Gomes para os lugares de Iniesta, Rafinha e Rakitić talvez tenham reduzido a qualidade, mas aumentaram a intensidade e o poder de choque. O Barcelona ia fazendo a sua obrigação. Não muito bem: os passes não saíam perfeitamente fluidos, os buracos que existiam não eram devidamente explorados e a intensidade não era elevada. Tudo mudou com o livre de Neymar. O remate foi muito bom e talvez fosse necessária uma intervenção extraordinária de Trapp para o parar, mas foi a atitude do guarda-redes do PSG que capturou perfeitamente o jogo: um movimento mínimo na dirercção da bola e uma linguagem corporal que indicava indiferença.

 

Pouco depois veio o penalty sobre Suárez e, no final, a total incapacidade do PSG de matar o jogo mesmo quando tiveram a bola perto do meio campo e Ter Stegen, tendo ido à área do PSG para um livre, regressou e fez o corte que parou o contra-ataque em direcção a uma baliza deserta. Se apenas 10 minutos antes havia descrença, quando Sergi Roberto marcou o golo decisivo já pairava a sensação de inevitabilidade.

 

Para a história?

Mais que uma grande exibição do Barcelona, a reviravolta foi alvo de um PSG que marchou no Camp Nou como na direcção de um pelotão de fuzilamento de soldados convencidos que não teriam balas suficientes. O Barcelona marcou os dois promeiros golos em confusões na área, outros dois por penalties que não surgiram de movimentos bonitos, um por livre directo e outro com uma bola lançada algo especulativamente para as costas da defesa do PSG. O PSG, entre o 4-1 de Neymar e o 6-1 de Sergi Roberto, no espaço de 7 minutos, completou 4 (quatro) passes, dos quais 2 foram o primeiro toque depois dos golos.

 

Claro que ao Barcelona isto não fará diferença. Acreditou, mesmo que pouco, e soube aproveitar as oportunidades que lhe foram dadas, mas não foi uma exibição vintage nem para a história. A reviravolta é histórica. O jogo nem por isso. A não ser para o PSG, que se pode orgulhar (?) do possivelmente maior colapso da história do futebol mundial.

 

O árbitro

Deixei este aspecto para o fim porque não quis que fosse o principal foco de atenção. O PSG perdeu, não pelo árbitro, mas porque colapsou. Verratti, quando lhe falaram no árbitro, respondeu sucintamente «O árbitro? Perdemos 6-1. Não foi o árbitro» (cito de memória). Ainda assim, pode-se argumentar facilmente que sem o árbitro alemão o Barcelona não teria conseguido vencer, independentemente do colapso. Pode até argumentar-se que o colapso foi em larga medida devido ao árbitro. Resumindo os casos mais claros que me lembro:

- Neymar tinha feito uma simulação de falta na área que não foi sancionada com amarelo.

- Quando Neymar recebeu o amarelo (por uma falta que poderia perfeitamente ter sido vermelho directo) deveria ter recebido o segundo, reduzindo o Barcelona a 10.

- A jogada em que Mascherano pára Di María foi em falta (algo que Mascherano admitiu depois), o que daria um penalty e reduziria o Barcelona a 9 jogadores.

- O segundo penalty do Barcelona foi um mergulho óbvio de Suárez, que receberia o segundo amarelo, reduzindo desta vez o Barcelona a 8.

 

Estas jogadas teriam mudado o jogo para potencialmente 4-2 sem contabilizar o efeito estabilizador que teria para o PSG nem o facto de jogarem contra menos jogadores. As dinâmicas não se medem desta forma, mas as situações acima servem para ilustrar o impacto que as decisões do árbitro tiveram. A isto poder-se-iam somar várias pequenas decisões noutras fases e o primeiro penalty do Barcelona e o potencial a favor do PSG por mão de Mascherano. Estas duas decisões são defensáveis, mas reflectiram a tendência do árbitro em favorecer o Barcelona em caso de dúvida.

 

Mais uma vez: o árbitro não colapsou o PSG. Mas sem ele é claríssimo que o Barcelona veria o resto desta edição da competição a partir dos sofás.

 

PS - comecei este texto no dia seguinte ao jogo e terminei-o muito mais tarde. Não corrigi as referências iniciais.

 

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