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Comentador de Bancada

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Análise: França - Alemanha

Este jogo tinha tudo para ser o mais interessante do Europeu: duas equipas capazes de jogar bom futebol, com o maior leque de opções tácticas e individuais à sua disposição, que gostam de ter a bola nos pés, com jogadores de enorme qualidade e, além de tudo, era um França-Alemanha, um jogo com suficiente história (mesmo que pouco recente) a apimentar tudo.

 

Löw e Deschamps tinham opções tácticas a tomar antes do jogo. Do lado alemão Löw tinha de decidir não só quem jogava no lugar dos lesionados Gomez e Khedira e do suspenso Hummels, mas também como colocaria os jogadores. Havia a especulação sobre se preferiria deixar o 3-5-2 do jogo com a Itália, numa forma de contrariar a dupla atacante francesa (Giroud e Griezmann). O argumento em contrário era a falta de Hummels, o que lhe retiraria a possibilidade de ter mais um jogador capaz de construir jogo a partir da defesa. A solução poderia ser jogar com Can a central (posição em que jogou no passado pelo Liverpool) mas isso arriscaria que Deschamps instruísse Giroud a colar-se a Can e a deixá-lo isolado.

 

No final Löw foi fiel a si próprio e, sem a motivação de enfrentar o seu papão (a Alemanha venceu pela primeira vez uma eliminatória contra a Itália nas meias-finais), o seleccionador alemão decidiu confiar na capacidade dos seus jogadores em manter a posse de bola e fez entrar simplesmente Schweinsteiger para o meio campo, Can como substituto directo para Khedira e Draxler para o ataque, com Müller a passar para ponta de lança. E aí começou a perder o jogo (embora, em força da verdade, tivesse poucas alternativas).

 

 

Deschamps tinha duas escolha a fazer: 1) manter o 4-4-2 que tão bem tinha funcionado contra a Islândia mas à força de jogar sem especialista defensivo e confiando no talento multi-funções de Pogba e Matuidi ou voltar ao 4-2-3-1 (ou 4-3-3) com Payet e Griezmann a começarem das alas?; e b) começar o jogo com Kanté ou manter Sissoko (esta opção estava ligada à primeira)? Manter Sissoko permitiria dar protecção extra a Sagna, que teria pela frente Jonas Hector (um lateral que, não sendo espectacular, tem subido muito bem no flanco) e Draxler e/ou Özil. Ter Kanté ajudaria a ter alguém que corre imenso e está excepcionalmente equipado para recuperar a bola. A opção por Sissoko ditou o 4-4-2, decidiu que Griezmann teria liberdade e aceitou que mesmo com Kanté seria difícil recuperar a bola e preferiu proteger os flancos.

 

A escolha de Deschamps era arriscada e partia de um pressuposto simples: sem Gomez a actuar como pivot, os flancos seriam a melhor opção de ataque para os alemães. Isto poderá parecer contraintuitivo, mas a verdade é que Gomez era uma opção para cruzamentos de posições mais recuadas enquanto que sem ele a melhor opção era sobrecarregar os laterais, descer à linha e cruzar rasteiro e atrasado para médios ofensivos vindos de trás. A opção de Deschamps foi arriscada (especialmente no flanco esquerdo, onde Payet dava muito meno protecção) mas graças ao trabalho central de Pogba, Matuidi e Griezmann (a fazer lembrar as suas funções no Atlético de Madrid), os alemães viram o centro fechado e optaram de facto pelos flancos, mais protegidos.

 

Os alemães tiveram no entanto o seu maior obstáculo devido aos seus próprios jogadores. Boateng estava nitidamente em subrendimento e sem a sua protecção a defesa estava sempre muito exposta. O seu principal contributo era com as suas bolas longas diagonais a mudar de flanco e quando saiu, a construção de jogo alemã foi muito prejudicada. Can é um jogador também diferente de Khedira: embora mais talentoso e ofensivo, é também menos disciplinado e influente. Com Can, Evra foi ficando mais isolado mas por outro lado Kimmich sentia-se menos protegido quando exposto a Payet e aventurava-se menos. Isto ia criando problemas no flanco, especialmente com Draxler pela esquerda, Özil por todo o lado e Müller preso ao centro.

 

A Alemanha ia mantendo a posse de bola, especialmente pelos polícias sinaleiros Kroos e Schweinsteiger, mas não conseguia penetrar a defesa francesa (a titularidade de Umtiti, que sem Gomez não vê a sua falta de altura tão exposta, foi decisiva). Além disso, sem um Khedira que dê disciplina ao meio campo, os alemães estavam vulneráveis aos contra-ataques franceses, especialmente quando Griezmann mudava de velocidade. Em muitos casos o grande obstáculo dos franceses eram os próprios, com passes para ninguém que demonstravam o quanto não estava na mesma frequência e o pouco habituados que estavam a jogar neste desenho táctico.

 

O golo francês pode ter surgido contra a corrente de jogo mas foi resultado de um infantil erro de Schweinsteiger. Há dez anos talvez o penalty não fosse dado, mas no jogo de hoje os futebolistas sabem que não podem saltar com os braços no ar. Schweinsteiger demonstrou a sua falta de rotina após a sequência de lesões, atrasou-se e saltou mal e cometeu um penalty que não tem assim tanta contestação quanto isso. Griezmann marcou calmamente o penalty.

 

Na segunda parte a falta de Boateng foi-se notando cada vez mais. Os alemães continuaram a jogar com uma defesa muito adiantada mas sem rotina e sem o patrão (cuja velocidade é fundamental). Por duas ou três vezes só não sofreram mais por causa da lentidão de Giroud. O segundo golo francês, contudo, nasce de um erro alemão e da sua própria doutrina de sair com a bola controlada a partir da defesa, com Kimmich a perdê-la quando tentava reiniciar o ataque. Note-se que apesar do brilhantismo de Pogba e do oportunismo de Griezmann, também aqui houve falha de Schweinsteiger. Um jogador menos lento teria chegado a tempo, um Schweinsteiger com mais rotina talvez também o fizesse. Um médio defensivo de raiz talvez já lá estivesse.

 

Depois da almofada de dois golos as opções de Deschamps foram óbvias: trocar Giroud pelo mais móvel e capaz de golos de meia-distância Gignac; fazer entrar Kanté para patrulhar em frente da defesa. Cabaye entrou nos últimos minutos para o aplauso e tentar manter a bola um pouco mais.

 

Já Löw atirou com o que podia. Fez entrar Sané pela primeira vez no torneio (era o único verdadeiro avançado ainda disponível) mas sem espaço para aplicar a sua velocidade acabou por ser pouco útil (a sua oportunidade no primeiro toque de bola terá surgido devido à reorganização defensiva francesa). Götze foi uma cópia de si próprio neste Euro: invisível. Em desvantagem no marcador e sem o plano B de Gomez, Löw tentou simplesmente redobrar os esforços do plano A que tão poucos resultados tinha dado.

 

O resultado pode parecer injusto mas não o é. A Alemanha tinha vários desenhos tácticos ao dispôr mas não tinha mais nenhuma abordagem disponível. Sem avançados capazes de penetração (Klose retirou-se, Gomez estava lesionado e Reus nem sequer foi ao torneio), a Alemanha pareceu uma espada longa sem lâmina: capaz de dominar o adversário com um florete mas incapaz de cortar. Ao jogar sem escudo, acabou por se expôr a um ataque bem colocado e perdeu. Como li no final do jogo, além dos médios que tem produzido em tanta quantidade e qualidade, a Alemanha necessita urgentemente de começar a produzir os avançados da sua história.

 

A França vai agora para a final com Portugal. Tem a história, os jogadores e o factor casa do seu lado. França é a óbvia favorita e tem a obrigação de vencer. Com Lloris, Pogba, Griezmann e os outros, está perfeitamente equipada para o fazer. Portugal terá as suas armas, mas sobre isso escreverei noutro post.

 

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