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Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

Mundial 2018 - análise

E o mundial terminou. Teve surpresas, bons jogos, controvérsia, novidades, algumas estrelas de Verão, uma nova super-estrela, muito sol, muita alegria, nenhum problema notório, um vencedor consensual, histórias agradáveis e futebol em geral mais aberto, mesmo quando com poucos golos. Foi melhor que os últimos dois mundiais e nos últimos 30 anos só 2006 terá estado ao mesmo nível. Foi um belo mundial.

 

França campeã. Não totalmente estranho, nem para mim nem para ninguém. Tinha-os colocado no meu lote de candidatos e apontado como a melhor equipa no papel. Na altura pensei que não tivessem o equilíbrio necessário, mas Deschamps conseguiu-o com alguns sacrifícios de talento e um desenho táctico assimétrico para proteger um lado (esquerdo, com Matuidi) e libertar o outro (direito, com Mbappé). Nas laterais sacrificou Sidibé e Mendy e fez alinhar dois jovens centrais versáteis (Pavard e Hernández) que foram dos mais seguros do torneio. No meio campo teve um Pogba em modo de segurança, só mostrando a sua qualidade quando necessário e sabendo que tinha o fenómeno Kanté nas costas. Em todos os jogos depois do de abertura deram sempre a ideia que não estavam a jogar ao seu máximo e, embora tivessem sempre que subir um degrau a cada jogo, deu sempre a ideia que tinham mais uns níveis de reserva se tal fosse necessário.

 

A Croácia capturou a imaginação no torneio e terá conquistado a maioria dos espectadores neutros. A forma como jogaram 3 prolongamentos seguidos, com jogadores lesionados, sem nunca deixarem o cansaço vencê-los e lograrem ainda ter força mental suficiente para passarem dois desempates por penalties seguidos, tudo isso os alçou à categoria de heróis. Na altura tinha-me esquecido deles na segunda linha (corrigi parcialmente a mão, mas já mais tarde) mas não devia. Com todos os cilindros a funcionarem perfeitamente, os croatas seriam uma mão cheia para qualquer adversário. Provaram-no e demonstraram que só não seriam superiores à França. Modrić mereceu o seu prémio de melhor jogador, Rakitić foi excepcional, Perišić foi sempre um problema para quem o apanhou pela frente e Mandžukić deu sempr o  equilíbrio necessário à equipa. Foi pena não os ver vencer, mas a caminhada fez sonhar.

 

 

Os belgas apresentaram a sua "Geração d'Ouro" no máximo, mas chocaram contra uma geração ainda mais dourada e mais equilibrada. Nas meias finais, o principal problema que acabaram por ter não foi o menor rendimento de uma das suas estrelas, mas a ausência da menor das individualidades: Meunier. Na sua ausência, os belgas não tiveram nenhum lateral de raiz e isso notou-se. Foram obrigados a mover jogadores pelo campo, o que deu num desenho táctico desequilibrado que nunca conseguiu penetrar a defesa francesa. Não foi por acaso que, pouco depois de entrar, Mertens colocou 3 cruzamentos perigosos na área francesa: com ele os belgas tiverm largura e poderam sobrecarregar um dos lados da defesa francesa. Infelizmente para esta táctica, Varane e Umtiti estiveram imperiais. Alguns jogadores conseguiram ir brilhando ao longo do torneio, mas os dois melhores terão sido Lukaku e Meunier, pelo equilíbrio e inteligência com que jogaram. Hazard demonstrou toda a sua qualidade técnica mas também a sua falta de inteligência táctica. Perdi conta às vezes que Hazard, tendo-se libertado da marcação e em corrida em direcção à defesa adversária, optou por prosseguir com a bola nos pés, tentando um drible mais ou deixando-se cercar pelos adversários quando tinha colegas em excelentes posições. Tais decisões em jogadores como Ronaldo ou Messi que marcam um golo por jogo podem ser aceites. Hazard não está ao mesmo nível.

 

A Inglaterra surpreendeu um pouco, mas também teve jogos relativamente simples. Quando fazemos o balanço do seu torneio, os ingleses saíram com 4 vitórias (ou 3 e 1 empate se ignorarmos o prolongamento) e 3 derrotas (2 e 1 empate), duas delas contra a mesma equipa (Bélgica). As vitórias foram contra equipas mais fracas (Panamá, Tunísia, Suécia) ou semelhantes mas sem a estrela (Colômbia, sem James Rodriguez). Isso não nos deve no entanto fazer ignorar que, pela primeira vez desde há muito, os ingleses se apresentaram com uma equipa sem óbvias mega-estrelas, com jogadores jovens e cheios de potencial e que conseguiram afastar velhos fantasmas (como as vitórias em jogos a eliminar e as marcações de penalties). Mesmo tendo-se sobrevalorizado a influência táctica de Southgate, houve certos elementos que mereceram atenção. Foi notório que o seu cérebro táctico se esgotou no desenho do 3-3-2-2 em que adicionou Walker aos centrais. Sempre que tinha que mudar, fazia-o entre jogadores na mesma posição (Dier por Henderson, Rose por Young, Rashford por Sterling) e nunca tocava no estilo. No entanto introduziu elementos de modernidade ao questionar axiomas muito velhos: os penalties não são lotarias e é possível treinar para eles; as bolas paradas podem ser repensadas (fiz aquele comboio várias vezes no basquetebol); os jogadores não precisam de estar em reclusão; a experiência pode ser sobrevalorizada; etc. Se Southgate souber continuar a fazer evoluir a sua equipa e encontrar alguém que adicione criatividade, o Euro2020 poderá ser inglês.

 

Dos outros, a Rússia foi a outra surpresa da edição. Aceitaram as suas limitações, apresentaram um estilo que os protegesse delas e jogasse para as suas forças, foram empurrados pela sua nação e tiveram sorte. E mostraram o valor de pontas de lança "à antiga" como Dzíuba, a qualidade de médios como Golovin e Tcherichev e a mente táctica de Tchertchessov. Os uruguaios tiveram o azar de perder Cavani. Nota-se que é uma equipa que, sendo mais que a soma das partes, não se pode dar ao luxo de perder partes como aquela. A própria defesa perde sem Cavani, dado que os adversários se sentem mais à vontade para atacar sem o risco das combinações Suárez/Cavani (aquela tabela de 100 metros contra Portugal... ai ai...) Os uruguais poerderam assim a oportunidade de adicionarem mais um título. Talvez não vencessem uma França que, no jogo contra eles, mostrou pela promeira vez as suas credenciais de verdadeira candidata, mas teriam tornado o jogo muito mais difícil.

 

O Brasil demonstrou nalguns momentos enorme qualidade, mas acabou por sofrer por não ter alternativas fora o seu desenho táctico único. Durante a qualificação jogou em 4-3-3, com Casemiro, Renato Augusto e Paulinho no meio campo. Casemiro segurava o meio campo, Renato Augusto distribuía o jogo e Paulinho subia para causar desequilíbrios. No mundial Tite optou por trazer Coutinho para o meio campo, fazer entrar Willian e remover Renato Augusto. O desenho passou a ser um 4-2-3-1 onde Coutinho tinha a obrigação de recuar quando necessário. Viu-se que isso estava fora das suas capacidades e, quanto mais defendesse, menos efectivo seria no ataque. A falta de Casemiro contra a Bélgica também se notou imenso, como se notou a incapacidade de Fagner de lidar com a qualidade de Hazard (que se tivesse aproveitado melhor a forma como se libertava, a Bélgica não teria tido de defender no final). No fim o que faltou foi ter alternativas. Cada jogador que entrava acabava a substituir um jogador na mesma posição. Ainda que as características fossem diferentes (Douglas Costa é muitíssimo diferente de Willian), o estilo não mudou. Neymar, por seu lado, apesar de ter entrado para o anedotário mundial, soube mostrar qualidade. Infelizmente fê-lo apenas a espaços e sem apoio suficiente. E o Brasil continuará a esperar.

 

Menções para o Japão e México, duas equipas que souberam mostrar vontade, que dominaram por períodos adversários mais fortes e tiveram jogadores em destaque (Inui para os japoneses e Lozano para os mexicanos). Os japoneses tiveram um momento caricato na fase de grupos, quando a perder decidiram manter a posse de bola para se apurarem por fair-play, num dos momentos mais irónicos da história dos mundiais. Depois, nos quartos de final, tentaram vencer o jogo com a última oportunidade com um canto e acabaram por perder quando a Bélgica contra-atacou de imediato. Fosse o Ying e Yiang uma invenção japonesa e haveria muitas piadas a fazer. Tenho a certeza que os japoneses terão as suas referências, mas não as conheço.

 

O Senegal mereceria mais, especialmente Cissé, que mostrou que os países africanos deveriam apostar mais nos seus próprios treinadores em vez de irem sempre buscar estrangeiros. Ainda no tema de países africanos, os nigerianos mostraram que têm uma equipa de qualidade e jovem à espera de explodir. Uzoho, Iwobi, Onazi, Ndidi, todos eles mostraram qualidade. Os sérvios têm qualidade pela equipa, mas infelizmente continuam a sofrer de falta de consistência ao longo dos 90 minutos. Os suíços mostraram qualidade a espaços mas também alguma apatia - falta-lhes qualidade no ataque. O Irão teria merecido mais, especialmente o seu guarda-redes Beiranvand.

 

A minha equipa do torneio (arbitrariamente em 4-3-3):

Guarda-redes: Danijel Subašić. Herói de dois desempates por penalties, sem culpa nos golos concedidos e jogou dois jogos lesionados. Outros: Pickford, Akinfeev.

Defesa: Meunier (o mais consistente lateral do mundial), Varane (que escrever...), Diego Godín (provavelmente o melhor defesa puro do mundo) e Lucas Hernández (defendeu, subiu, mostrou maturidade). Outros a mencionar: Vrsaljko, Vida, Umtiti, Yerri Mina, Davinsón Sánchez, John Stones, Harry Maguire, Kieran Trippier.

Meio Campo: Ngolo Kanté (o homem tem 3 pulmões e 4 pernas, juro), Paul Pogba (sem pretensões mas sólido e decisivo quando necessário), Luka Modrić (o coração e cérebro da equipa num só corpinho). Outros: de Bruyne, Tcherichev, Golovin, Betancur, Casemiro, Rakitić, Inui.

Ataque: Mbappé (um prodígio de técnica, força, velocidade e inteligência), Romelu Lukaku (técnica, velocidade e inteligência num corpo que faz medo a seguranças de discoteca), Ivan Perišić (velocidade, inteligência e, acima de tudo, um desejo imbatível). Outros: Lozano, Hazard, Griezmann, Mandžukić, Ronaldo, Cavani.

 

Sobre Portugal, escreverei noutra altura.

 

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