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Comentador de Bancada

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Pre-análise: Final Portugal - França

E assim, de empate em empate Portugal chegou à desilusão da 1ª vitória e à final do Euro 2016. Agora vem um improvável (visto do final da fase de grupos) jogo final contra a França e um igualmente improvável (vista desde momento) primeiro título sénior.

 

Muitas pessoas há que olham para este jogo como uma quase inversão do Euro 2004, onde a equipa defensiva mas sólida chega à final do torneio contra a favorita que é a anfitriã. Para mais sendo o seleccionador português o anterior seleccionador de uma Grécia que continuava os ensinamentos dessa equipa de 2004. Em Portugal naturalmente que se espera que o resultado possa ser o mesmo, numa das mais puras expressões de pathos que consigo imaginar. A ironia ameaça afogar-me à medida que escrevo estas linhas. Adiante. 2016 não é 2004, França não é Portugal e Ronaldo leva 12 anos em cima. E, mais que tudo, Deschamps não é Scolari.

 

Tacticamente poderá parecer que Fernando Santos só tem que escolher os mesmos jogadores (idealmente com Pepe no lugar de Bruno Alves), uma vez que o melhor onze se escolhe a si mesmo. Isso seria um erro por vários motivos, mas acima de tudo por um muito simples: independentemente do adversário, é sempre boa ideia adaptar a nossa equipa ao adversário; tanto para nos protegermos dos seus pontos fortes como para explorar os seus pontos fracos. E é sob este prisma que previrei o jogo.

 

 

As opções de Santos

Tanto Deschamps como Fernando Santos terão que tomar decisões, algumas no sentido de prever as opções do adversário e outras para prever aquilo que já se sabe. Para Fernando Santos há uma questão simples: como lidar com a dupla Griezmann/Giroud? Deixar os centrais, quaisquer eles sejam, a lidar com dois adversários, sem ninguém para a cobertura, pode ser uma receita para o desastre (como descobriram irlandeses e islandeses). Isto agrava-se quando se sabe que não há ninguém na linha recuada portuguesa que consiga sequer ver o pó que Griezmann deixa quando acelera.

 

Fernando Santos tem assim três opções:

  1. Defesa com três centrais. Esta opção é arriscada, dado que os centrais portugueses não só ainda não jogaram juntos neste sistema como nem sequer estão habituados a ele nos seus clubes. É a decisão mais lógica como desenho táctico, mas a mais simples de eliminar.
  2. Não mudar nada de essencial e simplesmente recuar a linha defensiva para negar a Griezmann o espaço para correr. Desta forma Griezmann vê-se obrigado a recuar para ter bola e pode ser marcado pelos médios. A desvantagem é possibilitar aos franceses o uso da meia distância, algo de arriscado quando há jogadores como Griezmann, Pogba e Payet. Esta opção será talvez a mais provável.
  3. Fazer jogar Danilo de início. Danilo recua mais que William Carvalho e tem melhor jogo de cabeça. Isso poderia ajudar a que descesse para o lado dos centrais sempre que necessário e assim ajudasse a manter superioridade numérica nessa zona. É uma abordagem extremamente comum hoje em dia, habitualmente usada para permitir a subida dos laterais (Guardiola usa-a frequentemente) mas que começa a ser usada cada vez mais contra adversários que alinham com dois avançados. Esta opção é muito possível, mas mais provável de ser opção "B".

 

Pessoalmente eu preferiria a 3ª opção, com Danilo e William Carvalho a entrar e a fazer sair Renato Sanches. Com um meio campo forte técnica e fisicamente, Renato Sanches não caberia tão bem (ainda é um jogador algo inferior a Matuidi e, certamente, a Pogba). A disciplina táctica e experiência de Adrien seriam melhores armas na batalha do meio campo, mesmo com o possível risco de o fazer recair para uma das alas. O meio campo teria então Adrien e João Mário nas alas, William Carvalho no meio em linha com estes e Danilo atrás de Carvalho, evitando os espaços entre linhas e caindo para entre os centrais. Com Carvalho no meio, a sua responsabilidade seria lidar com Pogba. Não estando ao nível do francês, Carvalho teria que o estorvar com o seu jogo físico e, essencial, não permitir que Pogba o ultrapasse e arranque em velocidade.

 

Com esta opção, seriam os laterais que ficariam com a responsabilidade de dar largura aos flancos. Em confronto directo com os laterais franceses teriam a vantagem de ser mais jovens, mas menos experientes e, em qualquer dos casos, tanto Sagna como Evra são altamente atléticos e venceriam duelos puramente físicos contra Cédric Soares ou Raphäel Guerreiro. Há aqui ainda o risco de ver os possantes Sissoko e Matuidi a aparecer nas alas, o que traria muitos problemas aos laterais e aos médios encarregues de os proteger. Poder-se-ia argumentar neste caso que Eliseu seria uma melhor opção para a lateral esquerda, dado que é um jogador mais forte, mesmo que neste momento pior lateral.

 

No ataque Portugal poderá tentar isolar Umtiti ou Rami, dependendo de qual deles inicia o jogo. Se Umtiti, Portugal poderá tentar explorar o jogo aéreo de Ronaldo com bolas mais directas. Mesmo que Koscielny apoie o seu colega, isso deixaria Nani provavelmente solto para apanhar uma ou outra sobra. Se Rami jogar, a melhor opção é isolá-lo usando o jogo rápido, rasteiro e de fintas de Nani. Rami é lento e duro de rins, tendo dificuldades contra adversários como Nani. Claro que Ronaldo pode fazer a diferença contra qualquer defesa, mas se Portugal puder encontrar outros meios de penetrar a defesa, tanto melhor.

 

Em qualquer dos casos, Portugal parte com uma certeza: à excepção de um ou outro jogador, a equipa francesa é superior quando os jogadores são vistos caso a caso. A esperança de Portugal reside numa boa táctica, bem aplicada e num bom desempenho de Ronaldo.

 

As opções de Deschamps

Deschamps também tem decisões a tomar, mas estas serão mais dependentes das suas escolhas, sem considerações sobre Portugal. Deschamps sabe como Portugal irá jogar e o facto de os jogadores poderem mudar provavelmente não mudará muito. É muito possível que opte pela solução que lhe dê mais opções de flexibilidade e maximize os duelos individuais, onde sabe que os seus jogadores teoricamente levam vantagem.

 

Uma opção é manter o 4-4-2 dos últimos dois jogos. Não é o seu desenho táctico preferido (iria antes para o 4-3-3) mas dá mais opções. Tanto pode atacar como contra a Islândia como defender como contra a Alemanha. A defender, perante a dupla alta-baixa de Portugal, pode optar pela mesma combinação e manter Umtiti. No meio campo é muito possível que mantenha Sissoko e deixe Kanté no banco. Portugal não tem um médio ofensivo natural, que apareça entre as linhas e, além disso, a França irá certamente ter mais bola que os portugueses, tornando relativamente desnecessária a presença de um especialista em recuperação de bola.

 

Além disso, alinhando com 4-4-2 Deschamps pode espelhar a táctica portuguesa, assim potenciando os duelos individuais acima mencionados. Pode também a qualquer momento alternar de táctica para 4-3-3 (Griezmann e Payet nos flancos, Sissoko no centro) ou para 4-2-3-1 (Griezmann ou Payet no flanco esquerdo, Sissoko no direito e Payet ou Griezmann no centro). Isso poderá confundir os portugueses. Em caso de incapacidade de penetrar a defesa portuguesa, é muito provável que avance cedo para Coman e tente jogar mais pelos flancos, num 4-4-2 semi-clássico (com Payet na esquerda e Matuidi e Pogba em linha no centro) ou num losango muito largo (com Payet mais avançado em posições centrais, Pogba mais recuado e Matuidi na esquerda). Ou uma combinação destas opções. Em qualquer dos casos, Sissoko será certamente o sacrificado a não ser que algum outro jogador esteja em claro sub-rendimento.

 

Abordagem

Qualquer que seja a táctica ou o onze que os seleccionadores escolham, é provável que vejamos a França com a bola e Portugal a jogar muito recuado. Os portugueses tentarão enviar bolas longas para Ronaldo e/ou Nani e os franceses tentarão envolver Griezmann o mais possível entre as linhas. Os franceses tentarão também criar pequenos bolsos de espaço em frente à área que permitam remates de longe. Já Nani e Ronaldo poderão sentir-se tentados a ir para as alas para procurar a bola e aproveitar o provável adiantamento de Sagna e Evra.

 

Em qualquer simulação será provável que a França vença. Contudo, chegando a uma decisão num único jogo, é muito possível que a equipa mais fraca acabe por vencer. É improvável, mas também esta final o era. 

 

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