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Comentador de Bancada

Comentador de Bancada

Um Sporting em (r)evolução e convulsão

Não tenho o hábito de me debruçar sobre os aspectos políticos ou administrativos de clubes, tal como prefiro não olhar para a arbitragem. Parecem-me sempre áreas onde se abre um buraco que nunca tem fundo e onde só nos podemos sujar cada vez mais. Só que a actual situação do Sporting é uma a que, mesmo sendo benfiquista, não consigo ficar imune. Deixo então a minha própria reflexão sobre o que se passa, mesmo avisando desde já que (quase) nada sei sobre as manobras políticas ou actores neste filme.

 

Antes de mais emprestemos um pouco de sanidade ao assunto: o Sporting Clube de Portugal é um clube centenário, com uma história rica e distinta e que não se esgota no futebol, longe disso. Não será por causa de uma ou outra pessoa (ou uma ou outra administração) que o clube desaparecerá. A força do clube e dos seus sócios e adeptos nunca o deixaria, por muito que possa sofrer de permeio.

 

Há no entanto que atentar que Bruno de Carvalho, com as suas acções mais recentes, parece estar a fazer o possível por isso. Não é intencional, como óbvio. Se há coisa que é absolutamente clara é que Bruno de Carvalho é um homem de convicções sportinguistas profundas e que ama intensamente o clube. Só que é aí que começa o problema: Bruno de Carvalho ama tanto o clube que o quer salvar a todo o custo e entretanto convenceu-se que só ele o pode fazer e que quem não esteja com ele está contra o clube. Ele provavelmente vê neste momento a sua pessoa como uma extensão do clube, ou talvez como a sua reflexão. Tudo o que faz é em prol do clube, mesmo quando, ou especialmente quando, toda a gente em volta lhe diz que está a proceder mal.

 

 

Desde que assumiu a presidência do Sporting em 2013, Bruno de Carvalho (BdC) tem vindo a demonstrar um trabalho de recuperação notável. A situação financeira foi estabilizada, as modalidades pareceram ter nova vida e o futebol, o centro de qualquer clube português, teve resultados que superaram qualquer dos 5 anos anteriores. Fiz uma pequena avaliação dos resultados do Sporting no campeonato nacional em termos de posição, percentagem de pontos possíveis e diferença de golos (entre marcados e sofridos) por jogo em cada uma das épocas. Há uma clara diferença entre o pré-BdC e após ele assumir a presidência. No primeiro ano isso terá sido talvez mais circunstancial e mais devido a uma injecção anímica. Nos anos subsequentes há já notória influência de outro trabalho na administração.

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Os gráficos demonstram a classificação final, percentagem de pontos obtidos (relativamente aos possíveis) e diferença entre golos marcados e sofridos divididos pelo número de jogos da época. O ano corresponde ao ano em que terminou cada época. A área sombreada corresponde ao período desde que BdC é presidente.

 

O que se vê claramente é uma melhoria do Sporting neste período. Só em 2008/09 o Sporting teve melhor capacidade de capturar pontos que nestes últimos 5 anos e não teve melhor diferença de golos. Ou seja, o Sporting tornou.se mais eficaz (mais pontos) e mais agradável (melhor equilíbrio entre golos marcados e sofridos). Ainda mais que isso, o Sporting estabilizou, alternando durante algum tempo com o FC Porto na busca do segundo lugar e tendo estado muito perto do título em 2015/16 (a percentagem de pontos teria dado o título em alguns dos outros anos). O que se passou então?

 

Penso que o que se passou foi precisamente a percepção de BdC que o Sporting tinha estabilizado. Deixou de continuar a melhorar e, pior ainda, ficou dois anos consecutivos em 3º lugar. Em vez de se focar na melhoria generalizada e contínua do Sporting e perceber que a excelência do Benfica e que tinha trazido 4 campeonatos consecutivos nunca poderia prolongar-se muito mais tempo.

 

O desequilíbrio emocional de BdC tem no entanto raízes profundas. Quando chegou ao Sporting prometeu algo do género de não permitir que agentes governassem as transferências do Sporting (algo perfeitamente razoável e desejável) mas também deu pelo menos a entender que não trataria com agentes como intermediários. Ora o futebol moderno vive destes intermediários, os quais servem para estabelecer primeiros contactos para averiguar o interesse das diversas partes num negócio, determinar os custos de transferência e exigências salariais e evitar comprometimentos que podem ser embaraçosos (quando não ilegais). Não sei se BdC cumpriu ou não esta promessa, mas é de crer, dada a sua paixão, que pelo menos o tentou.

 

Isso em si nada tem de mal, mas estabelece um parâmetro que se vê repetidamente: BdC rejeita liminarmente os métodos clássicos da indústria onde se envolveu e abana com o edifício. A indústria, que não gosta de quem quer mudar radicalmente as coisas, empurra de volta. Não sei se terá sido determinante, mas o Sporting passou depois a ter uma abordagem às transferências algo errática, com investimento em jogadores já mais velhos (alguns deles antigos jogadores ou objectivos de Jesus, como Bruno César, Brian Ruiz e Coentrão) e deixando sair jogadores promissores. Isto não passa de especulação, mas é possível que os jogadores mais jovens (como Esgaio) tenham saído em parte por pressão dos seus agentes, que viram as portas dos escritórios de Alvalade fechadas e assim procuraram situações mais favoráveis para os seus clientes.

 

Sejam quais forem as razões, BdC acabou por ser responsável pela construção de um plantel que se pareceu com uma manta de retalhos e com uma qualidade algo baixa. Sendo também um plantel construído à base de jogadores de qualidade média e que nunca criaram raízes e cuja atitude seria, na melhor das hipóteses, apenas profissional e nunca espelharia a paixão de Patrício, William ou Gelson, acabou também com jogadores que não têm o incentivo extra em situações que vêem como perdidas. Talvez (e mais uma vez especulo) tenha sido também isso que motivou os seus comentários a atacar jogadores após certos jogos.

 

O verniz estalou claramente após o jogo com o Atlético de Madrid. O facto de não ter piorado e de o Sporting ter tido uma sequência de vitórias (inclusive contra o mesmo Atlético de Madrid, mesmo que perdendo a eliminatória), demonstra claramente como os jogadores se sentiram atacados na sua dignidade pessoal e profissional e, no caso dos sportinguistas "da casa", no seu amor ao clube. Quando BdC começou a seu guerra contra os jogadores não percebeu que a face do clube não é o presidente, mas os jogadores. Quando perdeu Rui Patrício acabou por perder o plantel inteiro. Quando perdeu o plantel, perdeu também Jorge Jesus, que percebeu que no próximo ano não teria nenhuma equipa para treinar.

 

O final da época, com a derrota na Madeira, foi penosa para o Sporting. Pelo que entendi, os jogadores foram acometidos de uma apatia inexplicável para quem tinha a possibilidade de conseguir a passagem para a Liga dos Campeões da próxima época se conseguissem um resultado melhor que o Benfica. Caso o Benfica tivesse partido para uma vantagem confortável, talvez se entendesse essa apatia (o Sporting estava em desvantagem em caso de igualdade pontual) mas os jogadores pareceram ter-se rendido antes do golo do Benfica. outra vez especulação, mas talvez as notícias de hoje não tenham surgido em consequência directa do resultado mas de um sequência de eventos anterior ao jogo com o Marítimo.

 

Agora vemos então o Sporting à beira de jogar uma final da Taça de Portugal sem treinador e, talvez, sem plantel. Fala-se no treinador da equipa B ou dos guarda-redes para orientar a equipa, mas falta saber se o farão e que equipa A terão para orientar. E, mesmo que a tenham, se conseguirão que haja um mínimo de motivação. Haverá certamente muitas voltas até sábado, tal como as houve após o jogo com o Atlético de Madrid, mas parece certo que a situação não está boa e, pelo que vou lendo (sempre com uns grãos de sal) parece que Jesus não estará no Sporting no próximo ano e muitos jogadores poderão não querer ficar por lá e talvez até forcem a saída (o que levará a transferências por valores baixos).

 

O que fazer agora? Bom, não sendo sportinguista nem estando devidamente a par da situação, tenho dificuldades em ter ideias. A sensação que me dá é que esta administração do Sporting tem feito um bom trabalho e talvez mereça mais tempo para o continuar de forma tranquila. O ideal seria que emergisse um/a líder de dentro da administração que pudesse assumir a presidência sem que se convocassem eleições que não mais serviriam que para lavar a roupa suja em público e de ânimos exaltados. A situação tem que arrefecer e isso só me parece possível sem Bruno de Carvalho.

 

A culpa de BdC é óbvia, mas por outro lado é também vítima de ter tido vontade a mais. Quis mudar muitas coisas depressa demais em vez de simplesmente ter um trabalho de fundo, sustentado e sustentável (especialmente na parte política, interna e externa ao clube) que mudasse o rumo sem fazer ondas a mais. Com ou sem razão, assim que BdC abanou com o barco, os restantes actores (internos e externos ao Sporting) começaram a actuar contra ele. Quando se quer transformar convém saber fazê-lo.

 

Espero que o Sporting saia disto em breve. O clube recebeu bases nos últimos 5 anos que ajudam a construir um futuro sólido. Seria pena que fossem destruídas devido a uma pessoa que, por muito amor que tenha ao clube, sofre de excessiva incontinência verbal e de provável mitomania.

 

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